A delícia de voar

Após acomodar minha sacola de pertences debaixo do banco senti que estava pronto para observar atentamente as providências que os pilotos tomariam para decolar. Eu havia sentado de propósito na primeira cadeira à direita próximo ao corredor, de modo que a visão da cabine era privilegiada. Dali poderia tanto observar as manobras e os instrumentos, como também teria uma boa panorâmica da janela, pois não havia ninguém a meu lado e estava certo que não haveria, pois todos os passageiros já se haviam acomodado e a porta já fora trancada.

Começava ali o sonho de voar de avião, o qual eu esperava realizar desde a infância. De sentir as sensações do vôo que eu, não sei por que já sabia, pois tinha sonhado com aquilo.

Muito pequeno ainda, assistira na TV alguns seriados nos quais apareciam pessoas viajando de “teco-teco” e depois de uma altura muito grande soltavam de pára-quedas. Aquelas sensações continuaram muito vivas depois que cresci. Eu as lembrava como se tivesse participado junto com os para-quedistas, uma sensação deliciosa e muito forte ficara em mim e acho que por isso queria fortalece-las de forma ainda mais viva, mais real.

Sentado naquele ponto não perdia um só gesto, um só movimento de ponteiro dos instrumentos, um só ruído de botões ligados, um só aumentar ou diminuir de roncos do motor. O avião era nada mais nada menos que um Douglas DC-47 de fabricação americana dos anos 30. Um avião que eu conhecia porque frequentra o curso prático de Mecânica de Aviões concomitantemente ao ensino Médio, concluído na Escola Técnica Federal do Pará, hoje IFPa; curso que nunca me serviu profissionalmente cujo programa constava conhecimentos daquele avião. Conhecia aquele pássaro metálico, não para conserta-lo, ou pilotá-lo, mas tão somente o bastante para contempla-lo com minha paixão aeronáutica.

Os pilotos, após efetuarem os cheques de rotina, ligaram os motores: primeiro o da direita, que após girar por força do motor de arranque, pegou, fazendo um ruído e uma vibração típica daqueles grandes motores radiais, e produziu uma fumaça cinzenta que logo se dissipara com o vento da hélice. Após a partida do motor da esquerda, estabeleceu-se uma conversa com a torre em timbre de rádio antigo:

-“ Torre Belém, Bom dia, (XX-….)

– Bom dia, prossiga!

– (XX-….) estacionado, solicita (Voo…) para

Monte Dourado pela (…), plano de voo enviado!

– (XX-….), plano recebido, aguarde liberação!(…)

– (XX-….), autorizado Monte Dourado pela (…)

– Câmbio e bom dia!

– Bom dia e bom voo (XX-….)”.

-“ O piloto espalhou a mão direita empurrando as duas manteres de aceleração dos motores e o Avião passou a andar vagarosamente em caminhos sinuosos que levaram até a cabeceira da pista. Mais duas frases foram trocados com a torre. Os manetes foram empurrados até o curso final, levando os motores à potência total. Fez-se um ruído ensurdecedor e a força de propulsão colou nossas costas firmemente nas poltronas. O DC-3 parecia que ia explodir e começou a correr na pista com velocidade crescente. Eu olhava para todos os lados, a sensação era uma mistura de pânico, surpresa e prazer. Pela janela contemplava as arvores laterais que ficavam para trás junto com as gramíneas que servem para o marisco de muitos passarinhos amazônicos. De repente a aeronave descolou-se do chão e a sensação de aventura passou a ser ainda maior.

À medida que ganhávamos altura sentíamos alguns súbitos solavancos causados pelo encontro das asas com as nuvens baixas. Aos poucos as ruas e casas foram ficando pequenas. A vista passou a ser da maravilhosa floresta e dos rios que a cortam como serpentes. Belém foi ficado para trás.

De repente um grande solavanco. O motor direito começou a falhar. vibrava por três segundos tentando girar mas parava em seguida. Formou-se um grande pânico entre os passageiros. Um senhor que dormia, acordou de repente soltando um grito pavoroso.

O dois motores são para o avião como mãos que o seguram no ar. Uma falha dessas no caso do DC-3, é como se uma dessas mão deixasse de segurar a aeronave. A perda de sustentação é sentida de imediato, A tripulação tratou de acalmar os mais aflitos.

– Vire a válvula de combustível, deve estar entupido, gritou o piloto ao mecânico.

-É o que vou fazer, respondeu o mecânico em tom severo.

Ele rapidamente abriu uma portinhola no teto, próxima à cabine. Meteu uma das mãos no pequeno espaço e fez careta girando alguma válvula, em instantes o motor passou a funcionar perfeitamente. Sentimos que o avião logo ganhou sustentação e o alívio foi total.

Passado o susto, a viagem segui tranqüila. Em pouco tempo já avistávamos Monte
Dourado balançando na ponta do nariz do velho DC-3.

Por Antônio Roberto Mangas

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