Aventura de Férias

Naquele dia de julho acordei mais cedo ouvindo o barulho de panelas na cozinha. Era mamãe que, como de costume, acordava bem cedo e preparava o café. Em silêncio, sentei à mesa da cozinha para tomar meu café com o pão devidamente cortado em partes iguais por mamãe, um para cada integrante da família. Em seguida saí sozinho pelo caminho que levava ao portão do sítio onde todos os anos passávamos as férias escolares.

A manhã estava linda, com algumas pequenas nuvens passando devagar. Uma leve brisa balançava os galhos das arvores daquela mata densa que abrigava uma diversidade sem limites de vegetação: desde à pequena juquira até ao gigantesco cajuí, com seus cajus avermelhados, e com suas folhas molhadas pelo sereno da madrugada. Lembrei-me agora de um verso de Eça.:

Deus existe tudo o prova.
Mesmo tu grandioso Sol,
quanto tu raminho humilde,
onde canta o rouxinol!
(Eça de Queiroz)

Algumas cigarras cantavam anunciando o belo verão amazônico que começara há um mês, junto com as festas juninas que encantavam aquela época. Muitos pássaros cantavam e o pica-pau bicava uma árvore seca queimada pelo roçado. Tudo aquilo formava um ambiente calmo e agradável.

Resolvi dar um passeio mais longe, na casa de meu avô, distante uns três quilômetros dali num caminho muito sinuoso e cheio de sombra das grandes árvores que deixam uma gostosa sensação de frescor, com casas simples muito distantes umas das outras e paisagens que hoje só existem em lugares longínquos, fora da cidade.

Pelo caminho avistei a casa do tio Lino, casa de madeira, rodeada de plantas e fruteiras, simples como seu dono, um homem que ria com muita facilidade de qualquer assunto que contávamos, mesmo que não fosse piada, principalmente ao conversar com meu pai. Meu pai morreu quando eu tinha dezessete anos e até hoje sinto saudades dele; de ouvir suas histórias. Histórias de viagens que fazia pela Amazônia em busca de insetos: ele era pesquisador do Museu Goelde. A viagem mais fascinante que fez foi para a Aldeia dos índios Tiriós, de onde trouxe alguns presentes dos índios. Lembro ainda o arco e flecha pendurados por ele com orgulho na parede da sala.

Chegando ao sítio de meu avô, não encontrei muito para fazer, mesmo assim não me furtei de uma olhada no galinheiro, onde conviviam pacificamente porco, marrecas, patos, galinhas com pintinhos, dos quais eu gostava muito de escutar os ciscados nas folhas secas da capoeira em busca de quaisquer insetos e minhocas e também aqueles ruídos de galinhas que parecem reclamar da vida. Mas tudo isso em silêncio. Qualquer ruido despertaria a atenção de minha avó, que da cozinha certamente exclamaria:

– Quem está aí, corre já daí seu moleque !.

Lembrei-me de olhar os ninhos de bem-te-vis que viviam aos montes pendurados nas folhas das pupunheiras do quintal, bem em frente ao jirau. Daquelas árvores é que saiam os cânticos matinais que alegravam a hora do café. Nunca esquecerei aqueles dias de minha infância, junto com meus pais, irmãos e avós durante os dias de férias. Aquilo é que era ser feliz.

Depois visitei a estribaria do meu avô situada além do quintal, ao fundo de um pimental. La descasava o dócil cavalo Cristiano Machado. Recebeu este nome em homenagem a um político que foi candidato à Presidência da República nas eleições de 1950 pelo PSD. Era um animal branco entremeado de pelos pretos, muito dócil.

Resolvi tomar banho no igarapé: quase todos os sítios contavam com um. O do sítio de meu avô ficava em um caminho cerrado e escuro na direção contrária do quintal, passava-se então pela frente da casa para ir até lá. Lá chegando, quase não tive coragem de entrar n’água que era muito fria em função do percurso sob a sombra da floresta percorrido pelas águas. Aquelas nascentes hoje não existem mais, secaram pelo desmatamento para dar lugar a grandes conjuntos residenciais, onde moram pessoas pobres, ou deram lugar a grandes mansões ou parque residenciais para pessoas endinheiradas. De qualquer forma nada justificaria o desmatamento perto das nascentes e a morte dos rios e dos animais que ali habitavam.

Passados mais quinze minutos era hora de voltar para casa. Pelo caminho me deixei levar pela imaginação. Toda aquela beleza era um encanto. Imaginei alguns passarinhos me seguindo na areia pelo caminho, querendo conversar. E eu correspondia àquela conversa cordial com os bichinhos, coisas que só cabe na cabeça de crianças, e que se perdem com a fase adulta. Imaginação que só boas e verdes mentes podem ter nessa fase. Tempo que não volta mais.

por Antônio Roberto Mangas

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