Pontal de areia, um lugarejo no litoral paraense, pequena vila de pescadores devotos de Santa Edwiges. Lugar calmo do tipo que pouco se vê hoje em dia, com população de não mais que setenta famílias, onde a vida é pacata e simples, com as casas de taipa circundando a bela praia de areia fina, onde sopram ventos moderados ora fortes, ora fracos, conforme a baixa mar e a preamar.
Ali vivia Pinto Cantão, caboclo da terra, de boa saúde nos seus trinta anos de idade. Homem trabalhador, que muito orgulho despertava da esposa, a Maria da Graças, também filha do lugarejo e bonita como só ela no esplendor de seus vinte e poucos anos.
Certa noite estava ele, Pito, em frente sua casa, matutando, quando avistou, a média distância, na praia escura, um vulto de mulher, caminhando devagar, como quem anda sem querer chegar em seu destino. Mesmo dali observou Pito que se tratava de bela morena, de longos cabelos, lindas curvas e média estatura. Quem seria aquela ali sozinha ao sabor da noite de luar? O rapaz encontrava-se só em casa e não pensou duas vezes em se aproximar para uma conversa:
– Boa noite, como se chama a dona de tamanha beleza?
– Carmita.
– Que bela noite hein? És nova por aqui? Em tom baixinho.
– Sou sim, cheguei há uma semana. Estou com o Ramires, conheces? Respondeu a moça com uma voz tão suave que deixou pinto aceso que só fogo em folha seca. Pintou a atração só sentida em quantidade, segundo muitos, pelos habitantes do Brasil próximos da linha do Equador, do clima quente e úmido.
Ramires, moço conhecido no lugar, da geração de Pinto. Há tempos andava atrás de uma companheira e parece que agora encontrara.
– Ah, O Ramires, conheço, boa gente, que sortudo!
Pinto não pode esconder o constrangimento, mas permaneceu eufórico com a presença tentadora daquela mulher e a oportunidade de estar só com uma bela desconhecida era impar.
Há tempos que Maria não resolvia ir até a cidade visitar a família e fazer umas comprinhas. Pinto então resolveu continuar a agradável conversa.
– Escuta, está um pouco frio aqui, vamos até minha casa tomar um cafezinho?
– Se não tem problema vamos, topou a moça.
E foram. A hora estava avançada e em Pontal de areia não havia luz elétrica, um bom motivo para as pessoas dormirem cedo.
Ao chegarem, Pinto se viu diante da jovem como uma criança que ganhou um lindo e delicioso bolo de presente, sem saber por onde começar a belisca-lo. Resolveu tomar a iniciativa beijando milimetricamente a pele macia da morena. Ela correspondia, e os dois entregaram-se de corpo e alma ao prazer infinito da carne.
Dai em diante passaram a se encontrar as escondidas rotineiramente. Faziam o que podiam os dois para ficarem a sós, principalmente à noite na praia. Pinto andava mesmo se apegando à morena. Achava-a uma doçura e rezava durante o dia para ter logo a hora do encontro, antes cuidadosamente combinado.
Acontece que dona Maria começou a andar meio estranha. Ha muito não era a mesma esposa carinhosa. Falava pouco. Na cama, aparentava sempre indisposta, com o pretexto do cansaço ou de se encontrar possuída pelo sono.
Ás vezes ausentava-se por longas horas do dia, com a desculpa de ir visitar alguma amiga. O problema é que demorava demais. Pinto começou a desconfiar daquelas ausências intermináveis. Um dia resolveu segui-la. Dona Maria saiu, dizendo ela, com destino a casa da prima Maricota, que morava quase no final da praia. O marido esperou um pouco e seguiu no encalço da mulher. Mas logo observou que aquele caminho não coincidia com o da casa de Maricota. Aonde vai essa mulher? Será que ela semeia em mim uma cabeça de touro, pensou Pinto com tristeza. Para seu desespero o rumo da esposa foi dar certo na casa de Ramirez.
-Ai cassete! O que ocorre? Maria não é flor que se cheire? Pensou quase chorando. Mas havia de ser forte, e resolver a questão, fosse o que fosse. Recebera dos pais uma dura educação, para superar os problemas da vida, afinal nascera homem, e homem não chora, lembrando os conselhos do pai.
Com coragem aproximou-se da casa, bem junto de uma janela lateral, e ouviu com atenção Maria trocar palavras carinhosas com o tal Ramires. Ouviu de tudo, cada palavra, que soavam como se fossem pequenas e grandes facadas pelo corpo. Resolveu sair dali correndo, aos soluços, com o coração em pedaços. Correu feito um louco pelo caminho arenoso. No Meio do percurso resolveu voltar, de resolver aquilo logo, porque adiar o sofrimento? E voltou no mesmo pique.
Aproximou-se da porta e pôs-se a berrar:
– Maria, filha da puta, eu ouvi tudo, porque fazes isso comigo. La dentro os dois num susto medonho não acreditavam no fraga. Pensavam no que dizer, não tinham desculpas, mas deviam alguma resposta. Então Maria resolveu desembuchar.
– Pinto, sou eu sim, não vou te enganar, me perdoa, mas eu gosto desse moço, não é de hoje. Olha, foi até bom descobrires logo, eu não aguentava mais te trair, de andar mentido. Desculpa meu amor! Rogou Maria em prantos.
– Não me chama de meu amor sua p…, desculpa, vamos resolver isso em paz.
Ramires, com coragem, resolveu abrir a porta. Pinto, agora mais calmo, foi convidado a entrar.
Após alguns insultos e depois muita conversa em tom mais baixo, chegaram num acordo: Maria trocaria de lar.
Ramires não deixou de tocar no assunto da companheira com quem convivia há pouco tempo. Ela, não estava em casa. Ele não entendia aquelas saídas de Carmita tão constantes e demoradas, ainda mais à noite. Disse ainda que resolveria a questão com ela, afinal entre os dois não havia laços profundos. E pensou consigo que gostava mesmo era de Maria e para tê-la valia qualquer sacrifício.
Pinto olhou muito desolado no rosto de Maria e disse para que seguisse sua vida em paz, pedia apenas que mantivesse certa distância por uns tempos, não suportaria vê-la sem sentir uma espinhosa dor de corno.
Depois resolveu ir embora para casa não sem antes dar uma volta pela praia, para fumar um cigarro e espairecer um pouco a mente. La encontrou Carmita com um belo sorriso nos lábios. Pinto apressou-se para beija-la, para saciar o fogo que ardia por aquele pedaço de fêmea de pele macia e cor de jambo maduro. Ficaram juntos até o raiar do dia. Ele nem tocou no assunto, o qual tinha tanto a haver com os dois, mas que agora era passado.
– Filha, e agora, o que vais dizer em casa? Comentou, fingindo inocência.
– Não quero pensar nisso agora…
Antônio Mangas.