
O sol cresce aos poucos na manhã muito igual daquele grande, seco e triste deserto. O solo já meio quente cheio de pedras grandes e pequenas meio mergulhadas na branca areia fina dificulta o nosso andar. Ao longo se vê como a tremer por causa do mormaço as dunas sinuosas moldadas pelo escassos e quentes ventos que sopram não se sabe bem ao certo a direção. Ao longo avistamos o tão precioso esterco de camelo brilhando seu escuro conteúdo que bem poderia nos dar alegria por um ano caso conseguíssemos deslocá-lo até nossa morada. Chegamos perto, sentimos sua grandeza e cheiro e sem perda de tempo começamos a empurrá-lo com todas as nossas forças. Que tarefa difícil! Por vezes rolamos em queda para trás, duna abaixo, gastando preciosos minutos antes vencidos com a carga na subida. Nosso tempo para essa tarefa é precioso. O sol esquenta rapidamente a terra levando-a à temperaturas insuportáveis mesmo para nós habitantes desse mundo inóspito e distante. A pressa se faz necessária. Após meio caminho nossos corpos sentem o calor quase ao ponto de arder. Minhas amigas e eu choram de dor com a queimação na pele. É hora de começar a pensar na decisão: continuamos mesmo sob o risco de morte ou deixamos a carga e corremos para casa? A vontade de continuar e tanto mais forte quanto mais ousada, afinal daríamos muita alegria aos nossos, chegar com tão farta comida em casa para todos. É tarde. O sol não perdoa.

De repente uma de nós cai de costas na areia gemendo de dor com a pele tostada. É Maria, que grita uma voz seca até a morte. É iminente uma decisão. Então retiramos apenas uma parte da carga. Cada uma pega o que pode e corre com todas as forças rumo ao abrigo. Em segundos conseguimos chegar à sombra do buraco, quase sem forças e ardendo com muitas queimaduras pelo corpo. Por muito pouco tempo queimaríamos todas como folhas secas ao fogo. De lá, com lágrimas nos olhos avistamos o corpo de Maria que jazia sob o calor implacável do grande Saara. Fica com Deus amiga !?
Antônio Mangas