A partir de 1983 as viagens espaciais ganharam um novo capítulo. O ônibus espacial passou a ir ao espaço e retornar à terra pousando em uma pista como se fosse um avião comum, podendo ser reutilizado em missões posteriores visto que não mais cairia no mar com subsequente resgate dos astronautas em helicopteros, procedimento que inutilizava totalmente a espaçonave. Simples assim ? Nem tanto. Viagens espaciais são sempre procedimentos complexos e perigosos por vários motivos.
A chegada à órbita necessita de uma velocidade de 28.000 quilômetros por hora sem a qual nenhum veículo alcança seu destino. A velocidade ideal a ser alcançada demanda queima de muito combustível armazenado em tanques auxiliares. Qualquer imprevisto como um vazamento em um dos encapsulamentos pode gerar uma explosão fatal. A permanência no espaço e perigosa pois nave e astronautas tornam-sealvo do lixo espacial resultante dos numerosos restos de equipamentos e de pequenos meteoros que circulam em altíssima velocidade em redor da terra. Por fim o retorno é tarefa das mais complicadas em face do atrito gerado entre a nave e a atmosfera que leva ao aumento da temperatura até cerca de 1600 graus Celsius, tornado a nave uma espécie de astro incandescente, onde a integridade da estrutura precisa ser mantida, sob pena de incêndio e perda total.
Os EUA não são os únicos a empreenderem grandes esforços em viagens espaciais mas certamente foram os que mais protagonizaram grandes aventuras nessa empreitada. Rússia e mais recentemente a china têm empreendido viagens ao espaço e um consórcio envolvendo vários países constroem hoje a estação espacial ISS, a qual tem sido objeto e destino de várias missões aeroespaciais por parte dos países consorciados.
Muitos questionam porque as nações ricas como os EUA gastam tanto dinheiro com viagens espaciais. Porque se gasta tanto com caríssimos equipamentos. Porque arriscar tantas vidas, com essas missões tão desafiadoras e perigosas. A resposta pode estar na sede de conhecimento que existe não somente entre os americanos, mas na raça humana.
Os EUA possuem alem da febre de conhecimento, o meio primordial para empreender missões espaciais: O capital. Trata-se de ma nação rica que há mais de tres séculos construiu as bases para o crescimento econômico a partir de leis sólidas que oferecem oportunidades homogeneizadas para seus cidadãos e empresas.
Os ônibus espaciais, como a maioria das aeronaves civis e militares hoje são construídos, em sua maior parte de alumíno. Não há abundancia de aluminio naquele país, mas ele é o principal construtor de aeronaves do planeta. Graças ao seu enorme poder manufatureiro, pode importar e agregar valores a esse material vindo dos grandes produtores do alumínio bruto mundial: Austrália, Filipinas, Brasil e Costa Rica.
Foi precisamente na primeira fase da viagem, na ida até a órbita, que aconteceu em 1986 um dos mais trágicos e tristes acidentes da história das viagens espaciais. O Ônibus espacial Challenger teve sua estrutura totalmente desintegrada numa cinematográfica explosão. A catástrofe vitimou todos os sete ocupantes, seis astronautas e uma professora colegial.
Criou-se uma grande expectativa em torno da partida do Ônibus espacial naquela manhã de janeiro de 1987, afinal eram as primeiras viagens com aquele tipo de equipamento tripulado. A decolagem criava sempre uma espectativa mundial e principalmente naqueles que, como eu, adora assistir eventos de natureza “hi-tec” ao vivo pela televisão. As pessoas e a imprensa no Cabo Kennedy, próximas mas nem tanto, aglomeraram-se junto ao grande relógio digital montado pela NASA para monitoramento da contagem dos minutos e segundos que antecederiam a decolagem.
Alguns tropeçavam nos equipamento televisivos sob responsabilidade dos reporteres; outros preferiam meditar sob o evento e ainda guardar com atenção seu próprio lugar, conseguido quem sabe com muita luta entre as centenas de curiosos pleiteantes a uma boa visão da partida. Dezenas de reporteres transmitiam em vários idiomas os mínimos detalhes dos preparativos técnicos para a partida, de tal forma que se criou um murmúrio uníssono e barulhento de diferentes vozes e sotaques com resultado comovente e interessante de se ouvir, daqueles que só podemos presenciar em grandes salas de imprensa que cobrem grandes eventos.
Um auto falante emitindo som de boa qualidade anunciava vez por outra os movimentos dos astronautas e demais colaboradores nos preparativos de pré-vôo. Na grande estrutura de lançamento, daquela distância, podia se observar apenas um rastro de fumaça brotando debaixo do conjunto composto de reservatório central com seus dois propulsores laterais junto à nave. Mais próximo, e reservado apenas ao pessoal de operação eram mais nítidos os preparativos. Num instante, eis que surgem os sete heróis do espaço acenando. com sorriso nos lábios e passos seguros rumo ao elevador que os transportaria até seus acentos na Challenger.
Tudo pronto. Começa a contagem regressiva: “seven, six, five, four, three, two, one“. São acesos os motores. Ouve-se um ruido ensurdecedor e arrepiante. Uma grande fumaça branca envolve quase completamente a estrutura da base de lançamento. Descolam-se em retirada todos as partes mecânicas de apoio da Challenger. Começa a subida, no primeiro momento, devagar, é preciso vencer a inércia inicial, depois, acelera e parte espetacularmente. No primeiro procedimento acima do solo a Nave gira um pouco ao redor de seu eixo longitudinal, colocando-se quase completamente de costas em relação aos espectadores Esse ajuste de posição é normal para deixar a espaçonave na posição exata em que alcançará a órbita.
Em segundos recebe uma forte rajada de vento transversal que a empurra lateralmente para fora de sua rota, mas os computadores corrigem isso e trazem o conjunto de volta ao curso normal. Quando alcança dez quilômetros começa a fase de vôo mais crítica, onde a velocidade precisa ser um pouco reduzida com o intúito de diminuir o arrasto que pode levar a danos na estrutura.
Há sessenta segundos: “Challenger, full-Power engines”. Os controladores emitem ordem para dar força total aos motores. Uma câmera colocada na cabine de comando do ônibus, atrás dos astronautas mostra na TV uma cena que dá a dimensão da vibração resultante das forças de avanço e do atrito causado pelos ventos, forças contrárias à nave: como numa dança esquisita as cabeças de nossos heróis vibram em todas as direções como se quisessem sair de seus corpos. Em poucos minutos a chegada ao espaço estaria completa.
De repente o pior acontece: Uma explosão envolve a Challenger em uma imensa bola de fogo. Em meio à fumaça, o que se vê são inúmeras partes da estrutura projetadas sem rumo pela imensidão do céu azul. Os dois foguetes ainda intactos se desprendem e tomam rumos imprecisos até serem detonados via controle remoto como medida de segurança. Mas abaixo foi possíver distinguir em queda livre o que seria a cabine do Ônibus, onde viajavam os astronautas; naquela velocidade o impacto com o mar não daria a menor chance a quem ainda estivesse com vida.
Em terra, no Cabo Kennedy rostos virados para o alto anunciavam a dimensão da tragédia. Ninguém queria acreditar que tal cena fora verdadeira. Na sala de controles um silencio sepulcral, só mais tarde as noticias vieram confirmar e dar os detalhes da tragédia. A challenger fora atingida por grande explosão resultante de pequena chama vinda de uma emenda em um dos foguetes, a qual atingiu o reservatório central detonando-o. Não houve sobreviventes.
Antônio Mangas