Lobo Amazônico

Colocando de lado as dificuldades, o povo do Norte do Brasil vive, sem saber, num paraíso verde inigualável no mundo, com uma floresta paradisíaca e um manancial aquífero com rios de todo os tamanhos, lugar de onde se pode extrair riquezas minerais, vegetais e animais, medicamentos naturais e alimentos para suprir todo o País e o até o planeta caso a extração desses recursos passasse a ser feita de forma racional, o que infelizmente não acontece por vários motivos. Até aqui fazendeiros, madeireiros, empresas mineradoras, grileiros e garimpeiros cobiçam e se utilizam das terras amazônicas como abutres que a disputam como um animal abatido.
Só vivendo aqui, perto desse mundo verde úmido é que se pode sentir toda sua infinita magia. Embora residindo na capital, tive na infância muito contacto com a floresta e dela trago comigo até hoje muito de seus prazeres enigmáticos. Como certa vez quando fui levado por meu pai com mais dois irmãos para uma colônia além no município do Acará. Aventura que passo a descrever nas linhas que se seguem.
– Acordem seus molengas, temos que estar bem cedo no cais do porto para pegar o barco! Gritou meu pai nos tirando da cama as cinco da manhã num belo dia de janeiro, mês em que o inverno já se estabeleceu, mas que ainda permite belas manhãs de sol e chuvas certas pela tarde. Dali há uma hora, caminhávamos sobre as estivas da orla do pequeno porto da estrada nova, pequeno porto onde ancoram as embarcações vindas de todos os longínquos interiores e pequenas cidades do Estado. Eles estão em quase toda a orla de Belém, na parte banhada pelo Rio Guamá na parte sudoeste, e pela Bahia de Guajará à oeste, separados aqui e ali por pequenas serrarias, olarias e empresas que se servem dos recursos dos rios.
Caminhando por entre as pequenas habitações de madeira sente-se odores variados: de comida, de frutas, mas o que impera são os odores de restos vindos principalmente ĺá de baixo, do solo pedregoso e cheio de peixes, troncos e lixo apodrecido, ocupando o espaço de areia e lama deixado pelo ciclo de marés.
Meu Deus, medito as vezes, tanto espaço, tanta terra, e esse povo comprimido em palafitas aqui na orla da cidade. Ao olhar de cima vemos que Belém é um espaço concretado no meio da grande floresta. Os bairros periféricos formam aglomerações de casas e ruas que surgiram da ocupação sem planos, pessoas deixadas à margem dos benefícios gerados pela renda da exploração extrativista da região, riquezas que só uma elite detém. As pessoas que aqui vivem em pequenos quadrados de tábua e cimento na capital nem desconfiam que têm o direito de viver em quase infinitos campos e florestas ricas em alimento e outras riquezas situadas logo ali a poucos quilômetros e em qualquer lugar desse imenso país continental.
Da orla, observo para os dois lados e avisto centenas de embarcações rudimentares de todos os tamanhos, construídas, em estilos simples, cada uma com seu nome em colorido, o teto revestido com isolante preto e bandeirinhas desbotados nos mastro. Os barcos transportam principalmente pessoas e alimentos, além de móveis e utensílios de toda espécie, mas sua marca registrada é o som do motor emitido pelo tubo de escapamento no alto da embarcação, o famoso “pô-pô-pô”, som que dá nome a eles em toda a região.
À direita, ao longo, avisto as torres brancas da Sé. À esquerda ao longo das águas de cor marron claro, a maresia reflete o sol em pequeninas ondas que brilham e na outra margem as matas verdes que margeiam o começo do rio guamá, nosso destino.
Agora a bordo de um barco, começamos nossa viagem fluvial, cortando as ondas do rio na diagonal, singrando as marolas desse imenso rio que mais parece uma grande avenida aquática. Próximo à margem oposta contemplamos as raízes de árvores que parecem infinitos e compridos dedos e pernas em busca de sustentação no solo barrento. Os caules cinzentos de todos os diâmetros, alguns com manchas brancas sustentam os galhos que balançam com gracejos suas folhas, entre as quais equilibram-se muitos pássaros nativos, aproveitando o sol e a fresca brisa matinal vinda do leste.
Há muitos açaizeiros com seus finos caules, alguns já com cachos maduros aguardando a colheita. Aqui e acolá aparecem, mais ao fundo, as casas, chalés de madeira, não raro com cobertura de palha, e suas pontes de tábuas à frente. Não raro, as águas na maré cheia cobrem até o assoalho. As pequenas pontes servem de condução da cozinha ao rio, com canoas, ou “montarias”, amarradas à sua volta. Elas quase afundam com o balaço das ondas geradas por nossa embarcação. É curioso ver crianças e adultos em pé, sobre as estivas, respondendo a nossos acenos de adeus. Lentamente atravessamos o rio Guamá e penetramos no furo que conduz até a localidade de Jacaréquara, lugar até então muito rústico, com casas distantes cerca de um quilômetro umas das outras. Dali caminhamos por cerca de quatro horas até chegarmos a uma casa de apoio, onde passaríamos a noite.
Na chegada avisto um cavalo branco amarrado numa árvore próximo a casa. Ele era dócil e não tinha o olho esquerdo. Fiquei por um instante a contemplá-lo, a pensar em que circunstância o animal havia perdido um dos seus órgãos mais preciosos. A imaginar se doía o local do olho. Quem poderia saber, se o animal não demonstra sentir nenhum incômodo. Mais tarde soubemos pelo dono que ele perdera um olho vítima da ponta de um chicote mal manuseado pelo filho do proprietário.
Passamos a noite naquela casa simples mas aconchegante, aos cuidados dos donos da propriedade, um casal de colonos muito cordiais e solícitos. Durante a noite e madrugada pude sentir o prazer de dormir sobre uma cama quentinha, despertando apenas uma ou duas vezes levemente, pelo canto de algum misterioso pássaro ou do grosso ronco da guariba no alto de uma árvore, sem prejuízo para o descanso do longo, reparador e prazeroso sono.
Pela manhã nos ocupamos desde bem cedo com os preparativos para o novo e derradeiro trecho da viagem, que dessa vez só poderia ser feito a pé. Pelas sete horas partimos acompanhados de um guia e três cavalos. Em poucos minutos estávamos imerso em uma mata fechada e escura onde pouco se podia avistar alem da picada aberta pelo caminho lamacento aqui e ali forrado com varas para aliviar os atoleiros.
Contemplando a imensidão onde minha visão podia penetrar da enigmática floresta, imagino hoje que, como a mata, todas as coisas do universo, inclusive nós seres que se intitulam proprietários da razão, temos nossa própria vocação. Diante disso é absurdo que grupos se dediquem a atacar a floresta para satisfazer seus fins econômicos. E pior, atacam as nações indígenas com a desculpa de que elas devem pouco a pouco tornarem-se como nós homens das cidades. E fazem isso com o intuito de se apropriarem das florestas que são o habitat natural dessas nações humanas. Agir assim é não aceitar a diversidade, é como negar a existências das espécies animais e vegetais,que compõem o espetáculo da vida terrena.
E seguimos nosso longo e lamaçento caminho em direção a um lugar nunca antes imaginado por qualquer de nós, nem mesmo por meu pai, acostumado com viagens pelo interior da Amazônia em busca de coletar insetos para estudos no Museu Emilio Goelde, juntamente com pesquisadores Americanos e Alemães. Esse era o trabalho de meu pai. Após muitos escorregões, com os cavalos banhados de suor, por causa do forte calor e umidade perto dos noventa por cento chegamos finalmente em nosso destino.
O lugar parecia uma grande aldeia com muitos troncos de árvores recém derrubadas ao centro. As casas, algumas ainda em construção, formavam um círculo enorme distantes uns cinquenta metros uma das outras. Na minha mente ainda em formação raciocinei se tratar de local de habitação recente, onde se percebia ainda o verde na vegetação ao chão e o barro úmido nas casas de taipa. Era forte o perfume de mata verde, terra virgem e água límpida no ar.
Dava gosto de ver o sorriso nos lábios de cada pessoa nativa. Nossa chegada soava como um presente: uma emoção rara para anfitriões e visitas. Maria, uma moça adolescente que trabalhou em nossa casa em Belém, era só alegria. nosso encontro foi saudoso e alegre, de uma emoção infantil com brilho nos olhos. É que na infância as condições para o sonho são mais propicias que na fase adulta. Eu lembro que em nossa estadia, em minhas andanças sorrateiras, com ouvidos ligados em conversas adultas, escutei meu pai dizer que estávamos quase ao sul do Estado do Pará. Na verdade não estávamos tanto: é que as dificuldades do caminho nos deram a impressão de percorrer muito mais. Na verdade estávamos ainda bem perto da linha do Equador.
Mas meu sonho de percorrer mundo falou mais alto. Na mente ainda verde e infantil, o grande passo para conhecer o vizinho estado do Goiás fora dado. Passei então a subir em árvores muito altas e olhar na direção sul, na esperança de enxergar algum vestígio do estado vizinho – o cerrado, alguma cidade ou monumento goiano. Tal ideia ressoou fortemente em meus pensamentos durante a viagem e por muito tempo em casa após nosso regresso.

Antônio Mangas

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