Conheci Fred na escola. Foi no oitavo ano. Estávamos quase no final de Junho e sentíamos naqueles dias já a animação da turma, afinal as férias estavam chegando. No intervalo, Fred me perguntou.
– E aí, já tens um lugar para as férias de julho? já tem planos?
– Não, até agora não tenho nada planejado – respondi – e você, já sabe para onde vai?
– Sim! já está tudo certo, eu irei visitar meus tios e primos que moram no litoral do Rio de Janeiro. Vamos nessa?
– Sério? eu bem que gostaria, mas dependo da permissão de meus pais.
– Peça para eles, seria muito legal que fossemos os dois. Peça e me dê uma resposta!
– Não prometo nada, mas vou tentar!
Aquele convite veio a calhar. Papai me devia uma viagem desde que fiz aniversário e há muito eu nutria a enorme vontade de conhecer o litoral carioca. Eu que nunca saí de Minas, confesso que fiquei bastante excitado com essa possibilidade. Minha euforia aumentou ainda mais após ter obtido a permissão e o dinheiro necessário para a viagem. O tempo parecia não passar de tanto que ficamos ansiosos, eu e Fred.
Finalmente o grande dia chegou. Com mochilas nas costas e a mente cheia de recomendações ouvidas de nossos pais naquela manhã, partimos. Sentado naquela poltrona de ônibus, próximo à janela – Fred cedeu-me gentilmente a janela – eu imaginei as cenas que nos aguardavam naquelas férias como num filme. Como seriam os tios e primos de Fred? E a praia, teriam ondas que dessem para surfar? Com o celular na mão filmei ou fotografei qualquer paisagem que me pareceu atraente. E são muitas as belas paisagens na Rio-Minas.
Com o sol já se pondo, chegamos ao nosso destino, o fim de tarde proporciona ali uma bela visão amarelado-escuro na vegetação e nas encostas dos morros. O lugar é um pequeno povoado com poucas casas e possuindo vegetação típica do litoral, com a brisa intermitente levantando as folhas dos coqueirais.
A casa é grande e bonita, mesclada com madeira e alvenaria, tem uma pequea ponte de concreto na entrada para se evitar o terreno pantanoso, antes da porta principal. O primeiro cômodo é a sala, grande e confortável com poucos móveis. Logo ao entrar sente-se um frescor agradável, provocado pela sombra da vegetação próxima e a brisa, combinados com a madeira fresca. Mais à frente temos a cozinha, com uma grande mesa ao centro. Uma porta à frente conduz aos quartos do andar térreo. Uma escada à direita dá para os quartos do andar de cima e uma porta à esquerda liga esse cômodo à grande varanda, que circunda a lateral esquerda e a frente do imóvel. De dia, é o lugar preferido da casa, pois de lá observa-se o movimento das pessoas que se dirigem à práia, através de uma grande ponte. A práia e o mar distam da ponte cerca de cem metro depois de se caminhar suavemente por um caminho fino no terreno gramíneo onde nascem aqui e ali pequenas flores amarelas.
Logo fui apresentado aos tios de Fred, um casal muito distinto e educado; ele um homem baixo de cabelos loiros aparentando uns quarenta anos; ela, uma senhora morena de cabelos pretos e muito cheia de joias. E aos filhos do casal Gilda, Flávio e Tiana. Gilda é uma moça muito bonita de 15 anos, de cabelos encaracolados, nariz afilado com sorriso fácil, muito estudiosa com paixão desenfreada por cachorros, ela hoje possui cinco cães. Flávio tem 13 anos e me pareceu muito tímido e concentrado. Já Tiana é ainda uma criança de dez anos, muito conversadeira, sendo a alegria da casa.
– Rapazes, fiquem à vontade, escolham um quarto para ficar, tomem um banho refrescante e desçam para o jantar – disse com voz firme seu Júlio, o tio de Fred.
– Tá bom til, não se preocupe que já conheço o esquema – agradeceu Fred, demonstrando naturalidade.
Mais tarde, com a noite já bem escura e ouvindo o coaxar de muitos sapos de pântano, estávamos todos ao redor da mesa na varanda, jantando. Sentíamos o glamour do início de férias, quase sem acreditar que estávamos lá, longe da loucura da cidade.
Mais tarde, em nosso quarto Fred revelou-me uma surpresa. Na verdade não ficaríamos naquela casa. Nossa passagem por lá serviria apenas para não gerar preocupações junto aos pais dele. Fred contava com o jeito liberal de seus tios para realizar seu sonho de ter a própria casa de verão, coisa que empreendia já desde o ano passado. Ele construiu uma casa rústica na ilha de Curica, distante uma hora de barco do litoral. Na casa já havia inclusive um caseiro, trata-se de um velho amigo, o Evaldo, um rapaz de 25 anos de idade que vive de fazer e vender artesanato naquela região, gente muito boa e de inteira confiança. Contou ainda que os tios sabiam do empreendimento e que não tinham nenhuma intenção de aprofundarem-se em detalhes ou de barrarem as pretensões do sobrinho. Partiríamos rumo à Curica pela manhã.
No outro dia saímos bem cedo, por volta das sete, descemos do barco na principal práia de Curica. As oito estávamos acomodados já na pequena casa de Fred em plena práia, rodeada de coqueiros e vegetação litorânea. Como não havia o que descansar, tratamos de gastar nossas potenciais energias aproveitando todos os minutos do dia como se fossem os últimos. Dá gosto passar vários dias na práia, sentindo a brisa, o sol, o mar, o aroma bulcólico, paradisíaco. Depois do almoço resolvi caminhar sozinho pela práia. Antes, Fred e Evaldo dera-me as coordenadas dos lugares mais frequentados da ilha. Mas eu não quis ir a nenhum sozinho. Nos dias que se sucederam, tive a oportunidade de desfrutar de muito prazer nos locais onde frequentei com meus dois companheiros. Depois do jantar, eu costumava ficar deitado na areia, em frente à casa, olhando o lindo céu estrelado, até ter sono para dormir na cama. Foram assim, de muito descanso e tranquilidade as minhas primeiras férias no litoral carioca.