O susto

– “Torre do Galeão, bom dia, Asla 2535, destino Belém, solicito permissão para decolagem”
– “Bom dia Asla 2535, permissão concedia na pista 2”
Na cabine, lado esquerdo do Boeing 737-200 está o comandante Romeo, com sua larga experiência de dez mil horas de voo. Ao seu lado, o copiloto Dantas, que apesar de copiloto, já tem uma certa experiência com a aeronave, o que pode deixar os passageiros tranquilos para a viagem, no que depender da competência por parte dos pilotos. Para servi-los os passageiros contam com quatro comissários de bordo: Amália, Bira, na parte de trás da aeronave; Nena e Garcia no deck dianteiro, próximo à cabine.
Após o último Checklist os motores são acelerados, com as manetes empurradas para a posição fullpower. O Boeing corre pela pista e flutua na atmosfera carioca sendo almejado de leve pelos raios nascente do sol daquele belo amanhecer no Rio de Janeiro. Eram exatamente sete horas da manhã. Fevereiro se fora e a maioria dos passageiros está retornando de férias na cidade maravilhosa, após passarem deliciosos dias ensolarados e terem curtido o carnaval daquele ano. Pela fonia interna o comandante dirige-se aos passageiros.
– “Senhores passageiros, vos fala o comandante. Informo que nosso vôo sem escalas tem previsão de chegada em Belém por volta das dez da manhã. Voaremos numa velocidade cruzeiro de oitocentos kilômetros por hora, num altitude de nove mil metros, desejo a todos uma boa viagem”.
Enquanto ganha altitude com leve inclinação de curva à esquerda, num encontro com não espessas camadas atmosféricas de densidades diferentes, o avião costuma balançar, provocando algum desconforto, mesmo sem nuvens, causando medo aos passageiros de primeiras viagens e também naqueles como eu, para quem qualquer vôo parece sempre ser o primeiro. Estabilizado, o Boeing parece zombar da gravidade seguindo sua linda marcha retilínea após um leve e ligeiro balançar da extremidade da cauda, como um grande pássaro garboso a ostentar seu vôo.
O vôo com céu limpo a essa hora nos permite ver no solo alguma lâmpada de casa acesa. Possivelmente dorme ainda algum morador solitário o último sono, e, enquanto seu inconsciente ouve o ruído de nossos motores, seus sonhos contém senas inusitadas e quotidianas, e a mente retoca a produção de estranhas e mágicas substâncias essenciais ao corpo para a odisseia diurna. É hora de agradecer por tudo, pelo sol que nasce, levando os passarinhos que cantam saudando o novo dia.
Com o vôo estabilizado, é hora do café. A tripulação começa a servir aos passageiros um lanche simples, que não se compara em nada ao “padrão Panair”, disponibilizado nas décadas de 50 e 60, nos tempos áureos e glamourosos da aviação comercial. Atendimento vip só para alguns poucos, que podem pagar bem mais caro, em vôos onde há primeira classe.
Na cabine, são servidos a cada um dos pilotos um copo de suco de laranja. O comandante faz um pedido ao copiloto.
– Dantas, faça uma inspeção visual no motor direito. Por um momento senti alguma vibração nesse lado da asa!
O copiloto se estica um pouco e começa a inspeção, que dura cerca de trinta segundos.
– Tudo certo comandante, visualmente não percebo nada de anormal nesse motor.
– Obrigado, deve ter sido alguma turbulência nesse lado. Não percebo mais nada nesse momento.
Depois de meia hora.
– Comandante, preciso ir ao banheiro. – informa Dantas ao piloto, demonstrando certa urgência.
– Fique à vontade, Dantas, eu tenho o comando!
Dantas dirigiu-se à toalete traseira da aeronave e após ter urinado e sentindo-se aliviado, com o semblante melhor, inicia seu caminho de volta à cabine, podendo agora com mais tempo, poder cumprimentar com cordialidade seus colegas da parte traseira e dianteira do avião. Ao tentar abrir a porta da cabine, sente que a mesma está trancada, o que é normal: normalmente tranca-se a porta por medida de segurança, para impedir que passageiros mal intencionados entrem na cabine e consigam acessar os controles do avião. Dantas digita o código de segurança, mas não tem resultado, pois o comandante o desativou. Isso impede que qualquer membro a tripulação tenha acesso à cabine.
– Nena, entre em contacto com a cabine e peça para o Romeo abrir a porta, por favor!
– Romeo, aqui é a Nena, abra a porta que o Dantas está aqui fora e quer entrar.
Ninguém responde. E isso não é normal. Nena faz outros chamados mas o silêncio na cabine é total. Dantas pega o fone e faz também outros chamados mais nada de respostas. Ele resolve ir até a porta e começa a bater, mas o silêncio é persistente e preocupante. Garcia, o companheiro de Nena, a par da situação, vai a até o deck traseiro comunicar Amália e Bira sobre o que está acontecendo. Os dois, sem demonstrar qualque alarde, para não preocupar os passageiros, resolvem ir até o deck dianteiro.
Dantas começa a ficar preocupado. Ele bate muitas vezes na porta sem qualquer resposta, as batidas são cada vez mais violentas.
– Romeu, está me ouvindo? abra a porta, por favor! Eu preciso entrar! – suplica Dantas, sem obter resposta.
Nesse momento, Amália olha pela janela e percebe que o avião perde altitude.
– Estamos descendo! – mas eles sabem que isso não é para acontecer ainda. Estão com agora uma hora de vôo e a descida está prevista somente para daqui a mais quase duas horas de vôo. Os três homens e duas mulheres se entreolham com muita preocupação. Logo percebem que será necessário arrombar a porta, sob pena de morrerem todos.
Romeu ultimamente andava com problemas. O problema começou no coração.
Há cerca de um ano, conhecera uma jovem, durante uma folga. Estando ainda solteiro, com a idade de trinta e cinco anos, levava uma boa vida na cidade do Rio de Janeiro, lugar que escolheu para morar, onde se pode contar com uma vida boêmia e lindas praias. Lisa, é o nome da sua amada, com vinte anos de idade e uma beleza estonteante. Romeo, que antes residia em Aracaju, andava feliz da vida, ainda mais agora que havia encontrado aquela que pensava ser a sua alma gêmea. Ele já havia inclusive feito boa amizade com a família e com boa parte dos amigos de Lisa. De repente a coisa ficou muito forte. Romeu apaixonou-se perdidamente pela moça. Quando deu por sí estava mergulhado numa paixão avassaladora. Mas Lisa não sentiu a mesma coisa. O coração da jovem não se deixou penetrar pelo amor de Romeu. Lisa não era a sua Julieta. O apego sem disfarces do Piloto se fez notório para ela, que começou a afastar-se pouco a pouco. Primeiro disfarçadamente depois demonstrando desapego puro. Mas Romeu não perdeu as esperanças e fez de tudo para atrair o amor da menina, sem resultado. Por fim, Lisa, para afastar de vez as insistências de Romeu, o que acabou afinal dando certo, arranjou um namorado, e passou a andar com ele por todos os lugares, para a frustração total do ex amante.
Daí por diante a vida do piloto foi só sofrimento. Começou a ter depressão, chegando a consultar um psiquiatra. O médico concluiu que Romeu, além do problema amoroso, sofre também de síndrome psicótico depressiva com tendências suicidas. Precisou tomar remédios controlados que ao que parece não se mostraram eficazes para diminuir o sofrimento do paciente.
Ao acordar em casa, antes do vôo, Romeu decidiu por fim ao sofrimento – tiraria a própria vida – e para chegar ao seu intuito livrando-se daquele insuportável estado de penúria, tomou todos os requisitos necessários de forma fria e pormenorizada. Foi até a farmácia e comprou um frasco de hidroclorotiazida, remédio que estimula a liberação de líquido, provocando a urina mais que o normal. Pingou razoável quantidade da substância no copo de suco do copiloto no momento em que pediu para o colega inspecionar o motor direito. Na ausência de Dantas, que não suportou a vontade de urinar, trancou a porta e desligou o sistema de entrada por senha. Em seguida, desligou o piloto automático, desacelerou os motores e manobrou o avião para descer até que houvesse o choque e a explosão no solo.
Entre a tripulação o desespero é total. Dantas olha pela janela e conclui que eles têm apenas uns dez minutos para evitar o choque. Ele resolve usar o machado de emergência e passa a golpear a porta com todas as suas forças.
– Garcia, traga o tanque de oxigênio e vamos bater de forma alternada, rápido!
Os dois passam a golpear a porta alternadamente. A aflição aumenta na medida que o som das batidas é ouvido pelos passageiros, que também percebem a proximidade com o solo e passam a gerar um grande murmúrio ruidoso. Amália, Nena e Bira fazem um escudo humano para impedir a invasão do deck dianteiro por um grupo de passageiros alucinados que não se contentam com os pedidos de – Calma! – Calma! – Calma! – única palavra possível de ser dirigida pelos três tripulantes. No meio da multidão são ouvidos convulsivos gritos de:
– Estamos caindo!!!!!!!!!!!!!!
– Deus nos proteja!!!!!!!!!!!!!
– Vamos bater no chão!!!!!!!!!!!
– Vamos Mooooooooooooorrrrrrrrrrrrrrreeeeeeeeeeeeeeeerrrrrrrrrrrrrrrrrrr!!!!!!!!!!!!!!
Os golpes de machado desferidos por Dantas finalmente começam a abrir um buraco na porta.
– Estou conseguindo! Vou conseguir entrar!
Com a abertura do orifício, Dantas consegue passar primeiramente as pernas, depois, com dificuldade, o corpo, para dentro da cabine. A cabine está vazia. Pelas janelas dianteiras vê que o avião está a poucos metros de espatifar-se no chão. Ele rapidamente toma o comando; puxa cautelosamente o manche, ao mesmo tempo que leva as manetas de aceleração dos motores à frente. O Boeing começa lentamente a levantar o nariz e a distanciar-se do solo. Dantas não pode controlar a emoção e as lágrimas nos olhos.
– Garcia!!!! estamos salvos!!!!!
– AAAAhhhhhhhhhhhhh – grita Garcia de alegria. Com a porta já aberta, ele vai até seus companheiros e os abraça; a tripulação não pode controlar o choro. Amália e Bira passam a acalmar os passageiros, que, percebendo estar o avião retomando a altidude, estão mais tranquilos. Muitos agora esbravejam palavras de alívio e oram em agradecimento.
O Boeing alcança sua altitude e velocidade de cruzeiro. Após entrar em contato com a torre mais próxima e retomar o curso do vôo, Garcia chama Bira para ser seu copiloto. Os dois questionam o que teria sido feito do comandante Romeu. A resposta vem logo em seguida, quando Garcia encontra um pedaço de tecido da camisa do piloto encravada na fechadura da janela lateral. Rome tirou a própria vida, atirando-se pela janela em pleno vôo.

                                                                                                                                                                  Antônio Mangas

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