
Eu estava hoje por volta de 10:00 hs. da manhã em meu escritório, que fica no décimo sexto andar de um prédio próximo a um hospital de médio porte quase no centro da cidade. Hoje em dia, é grande o número de pessoas que ali chegam para o atendimento emergencial, muitas delas vítimas dessa onda de gripe que ora assola o mundo. Da minha janela posso confortavelmente observar o intenso movimento dos que chegam e deixam seus veículos aos cuidados de um guardador de carros. Outros chegam à pé ou em motocicletas, e, como ali está sempre totalmente ocupado, dirigem-se para o outro lada da rua, estacionando na grande calçada lateral ao estádio do Clube do Remo, distante da entrada uns vinte metros.
Foi o que fez uma senhora. Chegando em sua motocicleta, para deixar algum ente querido, de repente foi violentamente abordada por um ladrão. Minha atenção e dos transeuntes foi despertada com os gritos da coitada de “pega ladrão”, “pega o desgraçado”. Ela correu pela rua mostrando a bolsa aberta apontando para frente, tentando mostrar o delinquente que ia já bem à frente, driblando os carros e pessoas numa velocidade incrível. Alguns tentaram alcançá-lo, mas nunca poderiam. Dada a velocidade que empreendem esses bandidos em fuga, ele parecia mais um pombo sem asa, em busca de seu destino.
Já sem fôlego, a senhora resolveu parar, e, chorando, começou a contar o ocorrido. Com a modificação de seus semblantes, as pessoas davam a dimensão da perda que ela tivera.
Roubo, segundo o nosso Direito, é a prática de subtrair de outrem alguma coisa mediante violência. Difere de furto, quando a subtração é simples, sem a presença do proprietário da coisa. É um ato pré-histórico, pois existe desde antes da chegada dos humanos nesse planeta. Sem esforço pode-se concluir que os animais, na busca pela sobrevivência, há milênios furtam e roubam comida de seus conviveres e inimigos para saciar sua fome. Entre nós há notícia que é prática corrente em todos os tempos. Na Bíblia já encontramos relatos de roubos; Jesus, o nosso redentor, foi crucificado entre dois ladrões.
De volta ao episódio de hoje, podemos suscitar a questão colocando o sentimento e o ponto de vista das partes envolvidas e da sociedade em geral, pois trata-se de tema por demais discutido ultimamente, motivo que me fez discorrer essas linhas, pois é somente essa a função de quem escreve; a de promover o meditar dos que não se conformam com a vida num completo caos.
O ladrão deve agora, em lugar seguro, ocupar-se de contabilizar o lucro da empreitada, conferido e separando os objetos de valor que ele poderá vender por um preço bem abaixo do verdadeiro valor destes, para pessoas não menos inescrupulosas. Claro que os objetos sem valor de venda, como os documentos da vítima, já foram devidamente descartados em qualquer córrego. A um amigo ou parente o facínora contará com ar de vitória o ocorrido, e não se furtará de encher o relato com mentiras para dar mais emoção e engordar o ego doentio.
A vítima estará sentindo uma mistura de tormentos; a dor da perda de objetos preciosos do dia-a-dia; o nervosismo de ter corrido perigo, a ira de ser injustiçada sem esperança de vingança; enfim, os tormentos de ser vítima num lugar onde permanentemente se é ameaçada: a cidade. Sem contar com a dor de ter alguém enfermo na família.
Quando olhamos para o público, as opiniões sobre como diminuir as incidências de roubo no país, elas divergem-se, e formam dois grupos, cada um canalizador de opiniões potencialmente emocionadas e convictas, que muitas vezes se colocam em grande antagonismo de discussões e até de ofensas.
Um deles entende que o roubo é praticado por pessoas condenadas que não merecem nenhuma chance e por isso deveriam ser eliminadas da sociedade. Quem pensa assim entende que tem a formula para um mundo menos violento filtrando a sociedade descartando os impuros. Tal opinião é, buscando a ajuda de Fernando Pessoa, de cunho dogmático. Os dogmáticos põe a conclusão das coisas sem explicar como chegou a ela, e sucede, como se não vê relação entre o ponto de partida para a solução de um problema com o de chegada a tal solução. Para mim agem como um tolo que, encontrando a chave de uma casa, passa a anunciar que resolveu seu problema de moradia, sem mesmo saber se tal casa existe. O outro grupo entende que quem rouba precisa de chances para redimir-se, para tanto precisa passar por reeducação e reenquadramento social. O ladrão não é inexoravelmente um ente descartável, mas fruto de uma sociedade injusta, que pode melhorar com a educação. Dessa opinião fazem parte, lembrando ainda o autor lusitano, os que pensam de maneira racional, e levam seus ouvintes até à conclusão em um processo gradual, e, ainda que estranha e paradoxal, torna-se certo ponto aceitável, por ser compreensível como se chegou até ela. Penso que, na medida em que é uma solução mais trabalhosa, quase se não complementa, então esses adeptos agem como aquele que encontrou não a chave de uma casa, mas a planta completa para edificá-la, e propagam o resultado de um lindo lar que nunca será habitado, pois a obra jamais sairá do papel.
Antônio Mangas