
Como é um assunto que está na moda, falemos um pouco sobre Inteligência Artificial (IA). Entendo que IA representa o conteúdo de experiências humanas na medida que ela se utiliza do conteúdo das criações do homem. Se fosse criada em 1930 versaria sobre questões e problemas relativos à 1ª guerra mas não discutiria por exemplo sobre a 2ª grande guerra e muito menos sobre as vicissitudes e mazelas trazidas pela Internet. Podemos aqui concluir que o conteúdo da IA estará no tempo sempre atrás em quantidade e qualidade em relação à experiência humana. Sendo a Arte aquilo que é absolutamente inovador, ou novo, podemos dizer que o conceito de Arte pode ser dado pela diferença entre o conteúdo de experiências humanas menos o conteúdo da IA. Essa fórmula somente faz sentido se observarmos que tanto as experiências humanas: filosofia, arte e IA expressam ou compõem-se de elementos subjetivos e complexos, que não podem ser reduzidos a conteúdos facilmente mensuráveis ao ponto de poderem ser expostos em uma fórmula matemática.
Perguntei à IA sobre a importância do dinheiro para a vida. Qual a resposta? “O dinheiro nos permite adquirir itens essenciais à vida cotidiana; além de ser uma ferramenta que permite às pessoas que invistam em si mesmas e em seus sonhos. É possível iniciar um negócio, investir em educação e treinamento, viajar entre outras coisas que podem melhorar a vida. No entanto é importante ressaltar que o dinheiro não deve ser o único fator a ser considerado na vida humana. O dinheiro não pode comprar felicidade, amor, saúde ou paz de espírito. Portanto, é importante encontrar um equilíbrio entre o dinheiro e outras coisas importantes na vida, como relacionamentos, hobbies, saúde mental e física, entre outras coisas”. Pessoalmente gostei da resposta. Devo dizer que a IA tem me ajudado, principalmente na criação de horários e esquemas organizacionais para o dia-a-dia. Quanto à utilidade do dinheiro a resposta concorda com minha opinião. Acrescento que penso que o dinheiro deve ser encarado como uma coisa meio (como ele mesmo disse: uma ferramenta) e se torna muitas vezes uma problema quando encarado como um fim em si mesmo (um totem, uma jóia) que precisa estar presente para ser adorado).
Até aí tudo bem. A questão crucial para mim é a lógica do capital. Entenda o leitor como capital todo o sistema que norteia o sistema capitalista de produção. A dependência do lucro, seu resultado é a escravização do homem em sociedade. Cada vez mais encontramos, principalmente no chamado 3º mundo, desconforto urbano, muita violência, degradação ambiental e decadência moral. Tudo em virtude da corrida indiscriminada em busca do lucro capitalista. É só olharmos para a contradição escancarada, da vida no seio dessas sociedades em países economicamente dependentes, versos a vida luxuosa das elites proprietárias dentro desses mesmos países. O capitalista pode argumentar que os problemas da pobreza existem fora de seu âmbito, mas não é assim: as mazelas sociais, pobreza e violência existem em um mesmo contexto onde a riqueza não está equanimente dividida. Pode também argumentar que sua família não pode pagar pelos erros de outras. Mas negando a solidariedade em sua sociedade não é digno de usufruir dos bens que, na origem, foi herdado por toda essa sociedade. Voltando à IA, sua experiência pode alcançar os sentimentos? os de um cidadão? Entendo que somente pessoas de carne e osso são capazes de sentir a angustia de verem seus compatriotas capitalistas construírem pontes e estradas para carros, mas não estarem nem aí para satisfazerem pedestres construindo calçadas e grades sobre sarjetas que suportem pés humanos. Nesse sentido, a IA não possui experiência para opinar, pois somente as pessoas de carne e osso podem medir e avaliar os prejuízos que parte da sociedade tem sofrido e continuará sofrendo enquanto permanecem em curso tendências que só perpetuam as desigualdades sociais. Além disso os direitos e benefícios que todos herdamos; solo, ar, riquezas ambientais, têm que ser divididos com justiça. É como disse uma vez Heitor Cony: É ridículo que o proprietário de uma Lang Hover ocupe o espaço de nossas ruas com quatro grandes rodas quando a todos foi por natureza reservado espaço para dois pés.
Por outro lado, as pessoas que vivem somente por causa do prazer em ser rico, constantemente elaboram justificativas para tal. Pois se tornou uma pessoa superficial e não obtém prazer em coisas em que o dinheiro esteja ausente. Não vê prazer na arte, mas só no lucro que ela pode fornecer. Também não encontra prazer no convívio real com as pessoas. Talvez por isso muitos escondem-se atrás do computador para passar uma imagem de que não esqueceu seus amigos e familiares. Não só as pessoas mas as instituições constantemente fazem o papel de defensores do capital como um ente indispensável à felicidade. Não atoa vive a imprensa propagandeando como atrativos indispensáveis a uma vida feliz, os avanços tecnológicos, os feitos da modernidade, aprimoramento dos transportes. Mas estes avanços da ciência fazem parte de uma estratégia do capital para manter seus subordinados, os trabalhadores, sempre ofuscados pelas novidades muitas vezes forjadas, para que suas consciências continuem esperançosas num futuro que nunca virá. Artifícios dessa estratégia podem ser encontrados por exemplo nos noticiários radiofônicos e televisivos, quando as redes de televisão noticiam que as pessoas são mal atendidas no sistema de transporte urbano porquê as frotas de veículos não são regularmente renovadas e “esquecem” de dizer que o problema principal não é porque o ônibus é velho, mas porque motoristas e cobradores não estão educados para tratar bem seus passageiros. Eu, e a maioria das pessoas se sentiriam melhor sendo conduzido em um transporte velho mas eficiente com bom tratamento do que em um veículo de luxo mas sendo tratado como um cachorro. E por aí vai.
Antônio Mangas