Feliz Círio

Naquele sábado, depois de um longo e cansativo dia de trabalho, Plácido voltou pra casa disposto a dormir cedo, mas como de praxe tomou antes sua refeição noturna, composta de uma cuia de açaí com três pedaços de pirarucu salgados. Depois orou em devoção à N. S. de Nazaré e fez o sinal da cruz. O cansaço e talvez o efeito da refeição um pouco pesada, não o deixou de início plenamente leve para o sono profundo, e Plácido experimentou uma sensação mista de cochilo e leve vigília. Foi quando passou a escutar nitidamente a voz de Nossa Senhora, que começou a proferir-lhe algumas palavras, num clima de grande encantamento e luz. “Boa Noite Plácido. Espero que sejas meu porta voz aos homens. E que leves a teus irmãos não só o sentido de minhas palavras, mas a alegria que elas representam, uma vez que são não somente minhas intenções, mas também  as de Deus Nosso Senhor,  o Pai criador de todas as coisas existentes. Quero agradecer a ti e a todos aqueles que têm devotado pelo menos uma pequena parte de seu tempo em honra a mim e a nosso Pai. Obrigada. Como é linda a procissão que fazem em minha homenagem aí em Belém. Algumas manifestações de fé até provocam lágrimas minhas e de nosso pai”. E plácido passa a sentir uma grande sensação de prazer, onde infinitos jardins de rosas produzem um frescor e perfume, que é uma manifestação de agradecimento de Nossa Senhora. “Como podem alguns ainda duvidar do poder e infinita bondade de Deus pra com os homens”. E Plácido tenta em vão dizer algumas palavras de agradecimento, mas logo fica inerte ao ouvir outras palavras da Virgem. “Plácido, dize aos teus, que Deus é infinitamente Bom, mas como na justiça dos homens, não perdoa quem finge desconhecer as leis divinas, portanto, o que Ele fez e deixou aos homens foi para ser respeitado e dividido”. No afã de absorver ao máximo o sentido daquelas palavras, Plácido passa a meditar; e recorda uma conversa que ouvira de seu patrão pela manhã, que em tom aborrecido reclamava de questões da política; “Ora essa agora de não se poder desmatar a própria terra. Onde já se viu não poder pescar em alguns meses; isso é incentivar a vagabundagem”. Veio também à sua mente as vozes de um mendigo que pede esmolas numa calçada próximo do trabalho; ele reclama dos infortúnios que o fizeram em pouco tempo passar de uma vida de colono a pedinte: “Dê um esmola a esse pobre coitado que tem sede e fome, que um dia já teve sítio com fruteiras e barco de pesca, mas perdeu tudo depois que veio o progresso e uma empresa tomou-lhe a propriedade”. “Meu Deus, dai-nos forças para continuar tendo, o pouco, mas abençoado pela graça de Deus”. “Fica em paz meu filho”, ouviu ainda Plácido, a voz de Nossa Senhora. “Segue tua vida, e não temas. Ama não somente a tua família, mas a todos como filhos de Deus. Transmite a todos um feliz círio”. E dormiu Plácido até o amanhecer o sono mais confortante de sua vida. Pela manhã acordou cedo e apressou a família para a procissão que, pelas imagens da televisão, cruzava já a Avenida Portugal.

Antônio Mangas

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