O Grande Voo Tupiniquim

O sol mal havia nascido naquela manhã de outubro de 1901 quando começaram a chegar os primeiros membros da equipe de Santos Dumont, ao hangar onde se encontrava o dirigível N° 6, no Park Saint Cloud, Local da partida. Albert, o chefe da equipe, passou a dar ordens a seus companheiros. O objetivo do aviador era levantar voo por volta de 13:00 hs. No quadro de avisos podia ser lida a sequência de procedimentos e testes, que seria a seguinte:

1º Abastecimento completo da câmara de gás e medição da pressão;

2º Abastecimento do tanque de combustível do motor;

3º Testes no motor;

4º Verificação das partes móveis;

5º Desatraque e partida.

Quando Santos Dumont chegou, a equipe de mecânicos já haviam transferido o aparelho para fora do hangar, onde os trabalhos poderiam ser efetuados com mais espaço para movimentação do grupo. O aviador, ao mesmo tempo em que dava instruções e exigia cuidados com os equipamentos, não deixava de volta e meia olhar para céu, na expectativa e torcida para que o tempo continuasse como estava até o momento, com céu limpo e ventos brandos, até onde se podia observar visualmente.

Mas todo o cuidado não foi suficiente. Alguém deixou derramar certa quantidade de gasolina na grama, e o cheiro foi sentido por Albert, que reforçou aos gritos para terem mais cuidado, principalmente com o combustível.

Quase na hora da partida, quando todos os testes haviam sido completados, Santos Dumont subiu no dirigível, tomando lugar no assento de comando. Ligou a chave de ignição e pediu que girassem a hélice para a partida do motor. Por algum motivo houve escape de uma centelha elétrica e o fogo pegou na grama, no local onde o combustível havia sido derramado. Antes que as chamas fossem contidas, o leme triangular traseiro foi atingido, com as chamas provocando pequeno furo na tela, o que não parecia trazer problemas para a navegação, mas que de forma alguma poderia ser remediado, não agora, no momento da decolagem.

Santos Dumont colocou as duas mãos sobre o chapéu, lamentando o ocorrido.

Lembrou-se do episódio com o dirigível Nº 2, que por causa de uma chuva ficou preso entre árvores em 1899. E arrepiou-se ao lembrar-se do acidente com o Nº 5, em que ele quase perdeu a vida. Mas pensou; vida que segue e seja o que Deus quiser. Com entusiasmo, deu ordens para que desamarrassem as cordas que prendiam o aparelho ao solo, acelerou seu dirigível e partiu numa corrente fria, rumo à torre Eiffel. No meio da pequena multidão presente no Park, alguém teve tempo de gritar em português: “Mostra que o Brasil não sabe só plantar café”!

Paris daquele início de século vivia um clima de encantamento em torno de inovações tecnológicas em todas as áreas. O positivismo, com suas teorias e projetos de maravilhas inimagináveis através do progresso, era tema de discursões acaloradas em muitas rodas de conversas, e a Torre Eifel, recém inaugurada, era motivo de muita admiração e orgulho para os parisienses.

O coração de Santos Dumont começou a bater mais forte à medida que seu aparelho ganhou mais altitude. Olhando para baixo contemplou a travessia do Rio Sena, a refletir os dourados raios do sol da manhã. Como é maravilhosa a sensação de alçar voo, de sentir a brisa da manhã acariciar mansamente o corpo. Como podem pessoas pensar em não viver momentos como esses, pelo comodismo ou medo, sem provar as delícias só testemunhadas por pássaros e anjos. À esquerda, contemplou o Park Edmond e mais a frente o Bois de Boulongne. Ao olhar para trás percebe quão pequena se tornou agora a Pont Saint Cloud. Aproxima-se da grande Torre Eifel, com seus lindos trançados de barras e cantoneiras em aço. Do solo, e da torre, pessoas contemplam maravilhadas o espetáculo de engenho e coragem protagonizados por nosso herói, ao cruzar com seu aparelho a grande estrutura de metal.

É hora de virar à esquerda e iniciar o contorno para entrar em reta de descida de volta ao Park Saint Cloud. Santos Dumont dá um comando firme para a manobra. Entretanto, o dirigível passa a fazer uma curva muito aberta, em consequência do furo no leme, que teve durante a subida seu diâmetro aumentando e agora permite muita passagem de ar.

Terminada a manobra será necessário agora trilhar uma distância em descida bem maior que a de subida. Os cálculos do aviador são:

Distância a percorrer  5 km

Tempo restante         7,5 min

Veloc. necessária       40 km/h

Veloc. máxima           40 km/h

Foi com muita comoção que o aviador concluiu que, devido ao tempo que perdeu na grande curva, precisaria se deslocar até o pouso em velocidade máxima, e ainda assim talvez ainda não conseguisse chegar a tempo, na verdade precisaria ainda ser ajudado por ventos a favor do dirigível para cumprir o tempo estipulado de trinta minutos para o percurso total.

Com a aceleração total do motor e as válvulas para entrada de ar abertas, o dirigível passa a ganhar velocidade em reta de descida para a chegada. Entretanto, faltando 500 metros para o pouso, por motivos de segurança, o dirigível precisa ter a velocidade diminuída. Ao cruzar novamente o Sena, há poucos metros da chegada, Santos Dumont já ouve gritos de emoção da sua equipe e do público que o espera para congratular lhe pelo grande feito de abrir o caminho da humanidade para voos bem mais altos, seguros e velozes.

Antônio Mangas

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