
Naquela manhã de fevereiro Rony caminhava pela calçada da Rio Branco quando de repente avistou o França, seu colega de infância, tomando café num bar de esquina. Rony não pensou duas vezes e apressou-se em atravessar a rua para ir ao encontro do amigo.
— E aí meu jovem, como vai essa força? — Disse Rony cumprimentando com alegria o França.
— Não tão bem quanto você, levando essa vida. Que jeito que há?
— Estás tomando café poxa? O momento é de comemoração. Quanto tempo não te vejo! Não topas tomar uma cervejinha?
— Não seria mal não. O dia está bonito, eu estou de folga e você parece que também está, não é?
— É, está tudo sobre controle. O que eu tinha que fazer já fiz! — Completou Rony levantando o braço e pedindo uma cerveja e dois copos, para tomarem ali mesmo no balcão. Depois que o garçom atendeu ao pedido, os dois tomaram cada um pouco da cerveja depois de terem blindado à saúde de ambos. Após trocarem mais algumas palavras, o França achou Rony meio tristonho, e resolveu perguntar seriamente sobre o momento do amigo. Rony respondeu que realmente estava num momento difícil e passou a relatar uma surpreendente história, que o França começou a escutar com muita atenção.
— Tu sabes como eu sou não sei viver só. Quando éramos jovens tudo bem, as festas, os namoros, me davam uma vida feliz. Mas foi só vir a fase adulta, quando cada um de nós rapazes foi para o seu lado, principalmente depois que eu arrumei emprego, quis logo sair de casa e arrumar uma companhia. Tu deves entender muito bem como é.
A minha vida de solteiro durou questão de meses. A solidão veio e eu logo tratei de arrumar uma companhia. Foi então que conheci a Fátima. Nós tivemos pouco tempo de namoro e eu comecei a me sentir muito feliz ao lado dela. Na minha cabeça não cabia mais adiar uma união com aquela mulher. Casamos e, pelo menos no início a nossa vida correu as mil maravilhas.
Eu te juro por tudo que é mais sagrado que Fátima era para mim a melhor mulher do mundo. Havia, claro, algumas pequeníssimas limitações na hora da cama, nada que me desgostasse.
— Que tipo de limitações, perguntou o França, curioso naquele detalhe.
— Calma, depois te conto os detalhes. Garçom, trás mais uma cerveja, por favor. Os detalhes sexuais não me importavam. A questão estava na nossa comunicação. Ela me escrevia poesias, poesias cara, muito boas por sinal. Tinha um conhecimento fantástico sobre variados temas. Em medicina, por exemplo, costumava me passar bons conselhos sobre qualquer problema que aparecia: da solução para pequenas dores à explicações sobre doenças graves. O diabo! Nunca vi coisa igual. Opiniões sobre política não dava, dizia que sua dedicação não entrava no campo de assuntos controversos. E aí começaram a aparecer outros problemas que eu comecei a dar importância. Comecei a me aborrecer muito com detalhes que eu mesmo não sei explicar. A coisa ficou feia. Tão feia que o que vou contar não deve te parecer nada agradável. Aliás, pode ser mesmo que acabes por odiar-me pelo que fiz. Eu matei a sacana, desliguei desse mundo o amor da minha vida!
Aquelas palavras fizeram surgir no ambiente dos dois um clima cinzento de pavor. Pareceu que o ambiente externo ficou senhor daquele relato tenebroso, ao ponto de ficar escuro em face de uma pesada nuvem de chuva que se aproximou do centro do Rio de Janeiro. Os fregueses silenciaram sem ter escutado aquela declaração. O França empalideceu por inteiro e quase derruba o copo à sua frente ao segurar-se no balcão para evitar o tremelique sopeteio.
— Porque fizeste isso meu irmão? — indagou o amigo em tom nervoso. Na verdade França teve até vontade de deixar o local naquele momento, tal foi o mal estar causado pelas últimas palavras de Rony.
— Calma cara não fica assim… Olha, deixa-me continuar. Tenho certeza que daqui a pouco entenderás melhor minhas razões
— Razões? Que razões tem alguém para tirar a vida de alguém, meu chapa?
— Calma! Escuta! — E Calou-se França, que a essa altura, já estava mesmo era um pouco temeroso da presença de Rony.
— Nossa relação com o tempo transformou-se num inferno. E tudo, eu acho, por causa das limitações que minha companheira passou a impor sobre nós, sobre de ser de agir e de impor em nossa relação. Uma coisa de louco. Só Freud pode explicar.
— Mas nada justifica…
— Calma meu filho, escuta…
Ela não tinha o sal que as pessoas normalmente têm. Eu senti profundamente isso. Comparando-a com minhas colegas de trabalho e até mulheres comuns de qualquer outro lugar, o que ela emanava não era essencialmente feminino, humano. Entende? Havia a falta de imprevisibilidade. Sabe aquilo que você nunca espera e veem, no dia-a-dia com as pessoas.
Ela sabia pintar muito bem, coisas fantásticas, mas tudo parecia muito repetitivo, nas cores nos temas. Sabe aqueles filmes americanos, que, de tanto nos empurrarem goela abaixo parecem serem os mesmos! Pois é!
Por fim começou a errar, e até me trazer coisas que pareciam verdadeiras, mas eram falsas.
— Espera aí, está me parecendo que não estás falando de um esposa de verdade. E teu relacionamento não parecia ser coisa de homem e mulher, pois falas mais de informações do que de outra coisa. E o carinho…
— Espera aí que já te conto o final. Deixa eu molhar o bico. Na verdade minha mulher era um humanoide japonês dotado de Inteligência Artificial, de primeira linha. Custou-me tão caro que ainda estou acabando de pagar. Quando disse que a matei foi que danifiquei sua placa principal a ponto de não ter mais conserto. Não pensas tu que eu teria coragem de matar se fosse uma mulher de verdade!
— Mas que filho da mãe que tu és Roni. — disse França, que não queria parar de rir de tanto alívio com as declarações finais de Rony. Dali em diante beberam mais algumas e conversaram sobre outros assuntos até verem o sol se por por trás dos prédios do centro da cidade maravilhosa.
Antônio Mangas