
Não faz muito tempo que nos encontramos na casa do Fernando, meu grande amigo. Éramos naquele sábado do mês de junho num total de quatro pessoas e conversávamos à cerca de grandes assuntos pessoais, cada qual contando aventuras atuais e antigas. Nossos encontros costumavam ser calorosos principalmente por serem regados a cervejas. Naquele dia resolvi relatar um momento importante da minha vida, certo de que meu relato chamaria a atenção dos companheiros.
— Vocês sabem que já fui condecorado nacionalmente na França — comentei atraindo prontamente os olhares.
— Não seria de surpreender. E como foi? — perguntou Rui muito curioso.
— Foi uma vez em Paris quando fui ali chamado para dar palestras sobre minha tese de conclusão de curso, que versou sobre a imortalidade da alma. Calma pessoal, sei que ficaram curiosos, afinal nunca comentei sobre esse assunto com vocês. Realmente, exceto meus familiares, ninguém mais ficou sabendo das aventuras com as quais tive envolvido após minha formatura, principalmente porque estive fora do país por um razoável tempo. Se quiserem cotarei tudo, pois acho que temos tempo e não estamos com pressa, estou certo?
— Claro que sim, Roberto, agora que mencionaste teremos muito prazer em te ouvir.
— Claro, com todo prazer — E assim comecei a contar sobre aquele longo período que foi o mais excitante da minha vida. E comecei:
— Em 1996 eu estava cursando o último ano de Sociologia, empenhado em escrever o meu TCC: (Trabalho de Conclusão de Curso), sob a orientação da professora Matilde, então muito conceituada no meio académico paraense, e, além de excelente mestra em metodologia das ciências humanas, também se ocupava em estudar o Espiritismo. Por ter tais ocupações e até crenças, a professora muito me incentivou a pesquisar sobre o tema que escolhi, que foi sobre a “Questão da vida após a morte”, ou mais especificamente sobre “A questão da impossibilidade de refutação da existência de lapsos de vida na própria vida”.
Devo dizer que meu desafio não só pareceu difícil, mas foi para mim quase impossível de realizar; tais foram as dificuldades que encontrei tanto com relação à pesquisa em si quanto em relação às pessoas que me causaram incômodo para a realização do trabalho por acharem que eu estava é ficando maluco e que aquele assunto de forma alguma poderia ser objeto de uma pesquisa acadêmica. O certo é que, apesar dos pesares, o trabalho foi concluído, muito por causa da boa vontade e da paciência que teve para comigo minha orientadora. Também é certo que as dificuldades que enfrentei valeram a pena e tiveram muitas consequências positivas para mim depois de formado; não é à toa que minha vida mudou muito, viajei o mundo inteiro, gozo hoje de boa reputação nacional e internacional, consegui grandes realizações profissionais e aquisições materiais e vocês sabem disso.
— Sabemos muito bem disso. Conte-nos, conte-nos logo o que o tornou uma pessoa tão digna de louvores como poucos nessa cidade — disse Pedro, um pouco emocionado. Então continuei.
Por causa do tema, meu trabalho acabou caindo na mídia e em poucos dias comecei a receber em casa alguns comunicados por telefone e por cartas. Pessoas cheias de curiosidades queriam saber mais sobre o assunto da pesquisa. Elas ligavam demonstrando muito interesse e urgência de respostas. Recebi correspondências dos lugares mais longínquo que se pode imaginar.
Uma correspondência despertou muito minha atenção, veio da Universidade de Paris, assinada pelo próprio reitor. Estava anexada com uma passagem aérea. Queriam que eu fosse até lá dar uma palestra. Diziam que estavam muito ansiosos por minha presença. Pediam prioridade. Que o meu tema havia despertado enorme interesse em toda a comunidade acadêmica daquela universidade, das pessoas em geral, da cidade e de todo o país. Ora, confesso que fiquei surpreso e contente com o convite. Na verdade Paris estava na minha lista de predileção entre os lugares que eu sonhava em conhecer um dia. Naquela altura viria a calhar uma viagem como aquela. E mais, a curiosidade das pessoas pelo meu trabalho era motivo de muito orgulho para mim, claro.
Durante a viagem, percebi que algumas pessoas nos aeroportos e mesmo nas ruas queriam falar comigo, faziam pergunta, muitas das quais eu nem entendia, por não saber ainda outros idiomas além do nosso português (sabia pouco já o inglês). Na Universidade anfitriã fui bem recebido e no hotel evitei falar de teorias, deixando esse momento para a palestra no Campus universitário.
Comecei minha palestra explicando que com as observações da vida quotidiana e estudos teóricos no campo da psicanálise, da astrologia e do espiritismo, cheguei à conclusão que nossa vida aqui na terra não ocorre de forma contínua, que morremos algumas vezes na fase preliminar (infantil, jovem e adulta), voltando ao estado normal da trajetória de forma imediata, tão rápida que não percebemos, pois o processo é muito sutil. Ao morrermos, somos automaticamente transferidos para oura dimensão exatamente igual à anterior. Na verdade, coexistem dimensões idênticas àquelas onde nascemos e desenvolvemos nossa trajetória de vida. Podemos dizer que o fenômeno ocorre com mais frequência em momentos em que dormimos demais; quando adoecemos gravemente ou quando passamos por um episódio de grande perigo.
Uma prova de que existem outras dimensões é que constantemente nos deparamos com fenômenos metafísicos, os quais dificilmente são percebidos pela maioria das pessoas. Fenômenos metafísicos podem ser entendidos como manifestações que se estendem de outras dimensões e ocorrem em forma de visagens, visitas extraterrestres, sonhos etc. A dificuldade de comprovação da existência de ouras dimensões ocorre porque somente um número muito limitado de pessoas; as pessoas mais sensíveis e dotadas de ligações paranormais é que podem perceber as manifestações emanadas das outras dimensões paralelas.
Quando morremos na velhice, nascemos igualmente em outra dimensão, mas em forma de bebês. “Eu digo isso e afirmo com convicção por pertencer à classe das sensíveis. E lhes afirmo que só pude levar adiante meus estudos por perceber tais fenômenos de morte e renascimento na prática. Vocês podem confiar no que eu digo por que tem minha fé e minha palavra. Estou pronto para as indagações”.
Não foi de estranhar que no primeiro momento minhas palavras não foram de fácil aceitação, afinal tratava-se de assunto controverso e de difícil comprovação, principalmente no tocante ao momento de uma pessoa passar para outro plano existencial; que tipo de sinais as pessoas sensíveis receberiam para perceber tal fenômeno?
Nesse momento crucial para me fazer crer e entender, expliquei que percebia nas pessoas uma espécie de sinal acima da cabeça; uma espécie de fumaça avermelhada indicadora do fenômeno da transposição para a outra vida. Depois dessa explicação confesso que fui mais bem aceito. Alguns presentes ficaram pensativos, outros chegaram a declarar, não sei se mentindo, que elas mesmas em algum momento já haviam percebido esse sinal em outras pessoas. Eu falei essas coisas com muita convicção porque realmente possuía.
Meus estudos e observações me levaram a falar com desenvoltura e sem medo, pois estava seguro do que transmitia. E mais, minha monografia foi bem redigida e continha as minúcias que punham fora de questão qualquer dúvida.
Aquilo que não ficava bem claro nas exposições podia ser desanuviado em meus escritos, o que representou mais um trunfo em favor de minhas declarações. Quando um inquisidor, em oposição, persistia em algum ponto, eu tinha como recurso instrui-lo a ler tais e tais itens, em tais páginas e punha qualquer estudioso mais persistente a dar o braço em meu favor. A partir dessa palestra meu nome passou a ser notícia nacional e não à toa fui dali a dois dias chamado pelo presidente para ser condecorado em uma cerimônia belíssima no “Palais de I’Élysée”.
Logo não me faltaram notícias de casa, dando conta de que muitos centros de estudos superiores, bem como grupos religiosos e outras pessoas estavam também interessados na minha palestra. Segundo minha esposa um dos interessados merecia atenção, pois se tratava de não menos que um Sultão Saudita muito rico e poderoso que não parava de ligar, e oferecer mundos e fundos em troca da minha presença em seu palácio, na cidade de Riad.
Naquele final de tarde em Paris me senti cansado e resolvi ir descansar no hotel. Lá, deitado em confortável cama após um banho refrescante, passei a meditar em como um simples cidadão do norte do Brasil, região tão menosprezada do país, passava por um momento tão significativo; há uma semana em Belém levava uma vida simples, correndo atrás de conduções precárias a caminho da universidade ou do trabalho, agora, via-me na possibilidade de escolher a nação onde gostaria de expor minhas ideias diante de tão longínquas plateias curiosas e boquiabertas.
Em meu subconsciente pairavam as palavras de mamãe pelo telefone referentes à curiosidade do Sultão, e pensei; por que não, pegar um voo para o Oriente Médio. E logo vieram as reminiscências da infância, pensamentos e sonhos sobre as histórias de desertos e oásis contadas por pessoas mais velhas; lindos e grandiosos palácios cheios de estátuas em ouro e prata, com extensos pisos cerâmicos de brilhos e desenhos fantásticos que emanam uma frieza de atrair qualquer um a de deitar no chão e dormir. Nas paredes milhões de rebuscados relevos e desenhos de cores vivas e ofuscantes, com detalhes tão perfeitamente talhados e pintados que demonstram a paciência e o prazer daquele povo pela vida e o bom gosto, tão distante dos habitantes das opressivas cidades ocidentais.
Sem perda de tempo solicitei o envio das passagens e em três dias eu contemplava da janela de um Boeing da Emirates Airways as abóbadas de grandes mesquitas de Riad, antes de pousar naquela cidade. À minha espera no aeroporto estava o famoso Mohamed Al Salem, o sultão que muito queria ouvir sobre as novas teorias da vida eterna. Em seu belíssimo palácio fui recebido por grande comitiva de estudiosos que não pararam de fazer perguntas durante os três dias em que ali permaneci, sempre com a ajuda de um intérprete.
No primeiro dia, porém, fiquei a sós com Salem, que foi muito atencioso e até certo ponto demonstrou nervosismo durante minhas explicações. Naquele dia, pela hora do almoço, Salem chegou a me confidenciar que, de fato, por ser detentor de muitas riquezas e de grande poder, gostaria de ter, digamos, uma espécie de segurança quanto ao destino de seus valiosos bens, seus familiares, seu poderio; poder grandioso, o qual pude perceber pelo respeito e veneração a ele dedicada pela população local.
A beleza do palácio onde fiquei hospedado continha muito das impressões e os detalhes que eu imaginava. Naqueles dias pude perceber melhor o comportamento do povo árabe e fiquei muito impressionado com sua religiosidade e sociabilidade.
Ao cabo de dois dias, após longo e extasiante período de palestras pela cidade, eu descansava em meu grande aposento. Comecei a pensar que estava na hora de dar uma pausa. No outro dia solicitei meu retorno ao Brasil, coisa que me foi concedida não sem antes ter prometido que voltaria àquele país em breve. Em meu voo de retorno, na rota Casablanca — Rio, me vi de repente em grande apuro. Acordei com tremenda agitação entre os passageiros. Um senhor sentado ao meu lado informou que o avião estava em pane e que em breve faríamos um pouso forçado nas águas do Atlântico. As recomendações eram para que permanecêssemos sentados, em posição de espera para o impacto. A princípio pensei em sair correndo em desespero, em gritar com todo mundo, de implorar não sei o quê ao piloto. Afinal, como morreria agora, no início da fama? Mas logo me fui conformando com a situação e entendi que a melhor decisão seria ficar sentado e rezar por um milagre.
Tive tempo de olhar para trás e enxergar por sobre a cabeça de todas as pessoas uma porção de fumaça de cor avermelhada.
Não preciso dizer que isso aumentou em muito minha aflição. Depois adormeci, e quando acordei fui informado que o avião não estava mais em pane e que em breve pousaríamos com tranquilidade no Galeão. Uffa! — Exclamei, cheio de alívio. No aeroporto fui logo comentando o ocorrido com a família e explicando que naquele episódio eu, com certeza, havia passado para outra dimensão. Alguns acreditaram, outros nem tanto.
— O certo é que estou aqui contando a história, que espero seja mais uma entre muitas que hão de vir! — Eu disse levantando o copo para blindar.
— Claro que ainda contarás muitas, Roberto! — bradaram os demais levantando cada um o seu copo para blindar.
Antônio Mangas