
Gilberto chegou como sempre bem cedo às quatro horas, na redação da TV Retórica a principal da Cidade para começar os trabalhos de coleta de informações para o primeiro jornal do dia, às sete horas. Para sua surpresa, não encontrou nada referente aos assuntos corriqueiros do primeiro telejornal da emissora, quais sejam: assaltos, brigas, desastres, ocorrências policiais, greves, catástrofes etc. Passou então a procurar assuntos em outras fontes, mas nada foi encontrado. Parecia até que houvesse defeito nos sistemas de comunicação, mas nada, estava tudo funcionando normalmente. Olhou em sua volta e aproveitou que alguns companheiros já haviam chegado e comentou em tom meio preocupado sobre suas pesquisas até o momento infrutíferas.
— Pessoal, pode parecer piada, mas não estou encontrando matéria para o jornal. Preciso de ajuda.
— Já procurou na internet? Dá uma busca no BPol (Bpol: Barra Pesada Online) que é infalível, não é possível que não aches nada lá.
— Vocês não estão entendendo, já procurei em tudo quanto é lugar. A coisa parece séria.
— Bom, mano, passa pra cima o problema. — sugeriu um dos colegas, tentando dar uma solução ao impasse.
— Por que não entramos em contato com a Central Geral de polícia e até com o Comando Geral da Polícia Militar — sugeriu outro colega. Essas ações foram providenciadas, mas não deram em nada. Em ambas as casas de polícia a informação foi de que estranhamente nenhuma ocorrência fora registrada desde as últimas horas do dia anterior. Estava tudo calmo. Uma coisa que, para quem conhece o clima de terror daquela cidade, era mais que surpresa. Inacreditável se contada a situação para alguém que estivesse ausente!
A questão foi então levada até o Sr. Júlio Bonfim, diretor de operações, que corou ao ouvir as palavras de Gilberto.
— Olha, eu não estou nem aí se não tem notícia violenta. Arranjem! Digam-me uma coisa. O que é que eu vou dizer para os anunciantes? E para os telespectadores? — disse em tom angustiado o diretor.
É claro que o diretor estava aí sim, na verdade ficou muito preocupado com a situação. Afinal, a coisa anda muito preta para os lados das emissoras ultimamente, financeiramente falando. Isso não é de hoje. Há muito tempo que pessoas ligadas a esse ramo de comunicação reclamam que para manter em pé uma empresa televisiva é preciso suar muito. Algumas precisam colocar uma programação, onde as atrações passam nos intervalos das intermináveis sequências de comerciais.
Além disso, não adianta ninguém reclamar do estilo ante educativo, violento e muitas vezes pornográfico dos programas exibidos, pois os proprietários assumem que é melhor ser assim do que ir à falência.
Isso posto, a ordem seria correr atrás da notícia sensacionalista estivesse ela onde estivesse.
A coisa espalhou-se por todo o prédio, chegando aos ouvidos de todos.
Até então, o furdunço se encontrava no âmbito interno da emissora, entre seus colaboradores e gerentes, que reagiam de formas diversas.
Melquisedec, companheiro de Gilberto que o ajudava na preparação das matérias estava muito nervoso e apresentou uma solução no mínimo estapafúrdia:
— Que tal se exigirmos do motoboy que ele assalte algum pedestre aí na frente com uma arma de brinquedo, para depois utilizarmos as imagens da câmera de segurança?
— Não podemos fazer isso, pois as outras câmeras vizinhas iriam reconhecer que o motoboy é daqui, esquece isso. — disse Gilberto.
— Mas algo precisa ser feito, ora. Eu é que não quero perder meu emprego. Tenho filhos e mulher para sustentar. — resmungou quase chorando o âncora um, Américo Souza.
— Bem que minha mãe dizia para eu ir estudar outra coisa e não jornalismo. E eu bem que devia ter ouvido seus conselhos, pois estão até querendo aprovar uma lei, onde jornalista nem precisa de diploma para exercer a profissão. — declarou indignada a âncora dois, Alice Lima.
Nesse momento entra na sala de redação Júlio Bomfim, querendo saber quem deixou vasar o problema a ponto de ter chegado ao Pastor Alfaia, dono da emissora.
— Saibam que ele ligou para mim dizendo de tudo. Só não me chamou de santo. Escutem, eu não vou segurar isso sozinho, pessoal. Vai sobrar pra muita gente. É o que eu aviso.
Chega a hora do jornal de maior audiência daquelas bandas do Brasil. Em frente às câmeras estão os âncoras e na pauta de notícias três matérias principais.
“Cresce nos Pais as dificuldades de alfabetização de crianças”; “Sobe para vinte por cento a porcentagem de desempregados no Brasil” e “Faltam vacinas contra a Covid Dezenove nos hospitais da maior capital do pais”; e outras de menos importância e que não tinham a ver com a violência, o assunto típico da emissora, que lhe tinha levado ao patamar de emissora de maior audiência naquele horário no Brasil.
O telejornal era mesmo muito visto pelo seu conteúdo de violência. A prova disso, é que em poucos minutos no ar, com matérias que não representavam as de costume, começaram as reações do público telespectador, que passou a enviar suas críticas por todos os meios; principalmente com telefonemas e mensagens pela internet.
Uma professora de língua portuguesa ligou anunciando que daria início a uma greve de fome naquele momento, até que colocassem no ar as notícias de violência que ela tanto esperava assistir todos os dias.
Um pastor evangélico disse que, com todo o respeito, aquilo era uma tremenda de uma falta de consideração para com ele e com seus fiéis.
O gerente geral da fábrica da Coca-Cola na cidade mandou muitas mensagens de repúdio.
Uma senhora de 100 anos de idade disse com todas as forças que, se adoecesse, faria de tudo para responsabilizar a emissora, e que seus filhos e netos entrariam na justiça pedindo indenização, e também o pagamento por parte da empresa das despesas com o seu tratamento.
O assessor de imprensa do Pronto Socorro municipal da cidade ligou para informar que duas senhoras deram entrada naquela unidade com sintomas graves de ansiedade, e que, indagadas sobre que motivos poderiam leva-las àquele estado, responderam de pronto que não aguentaram ficar sem assistir as suas “violências”.
O clima no interior da emissora já era de pânico, mais piorou quando os funcionários passaram a ouvir ruídos estranhos, que depois fora constatado serem de pedras que estavam sendo jogadas nas vidraças do prédio por pessoas do lado de fora revoltadas com a situação.
Em meio ao caos uma notícia: A copeira, ao entrar na sala do Sr. Júlio Bonfim, observou que ele estava no chão, próximo à sua grande cadeira, com uma cara de dar medo e o corpo já frio e duro. A copeira saiu dando alarme aos berros. “Chamem um médico, o seu Júlio teve uma síncope”. Logo se constatou que era tarde demais. Sr. Júlio Bonfim havia partido dessa para melhor.
— Vamos noticiar o ocorrido. — anunciou Gilberto sem perda de tempo.
Em pouco tempo a notícia do óbito do Chefe de operações da poderosa emissora foi levada ao ar e adentrava os lares dos cidadãos. “É com grande pesar que noticiamos a morte de nosso tão digno…” Anunciou Américo Souza com um semblante que não se pode definir bem como sendo mais de tristeza ou alívio. As coisas foram se acalmando. Os telefones não tocaram mais. Não se ouviu mais o ruído das pedradas. Pouco a pouco as críticas pela internet foram substituídas por mensagens de condolências. E tudo voltou ao normal, com a audiência do telejornal voltando às alturas.
Antônio Mangas