Conheci Fred na escola. Foi no oitavo ano. Estávamos quase no final de Junho e sentíamos naqueles dias já a animação da turma, afinal as férias estavam chegando. No intervalo, Fred me perguntou.
– E aí, já tens um lugar para as férias de julho? já tem planos?
– Não, até agora não tenho nada planejado – respondi – e você, já sabe para onde vai?
– Sim! já está tudo certo, eu irei visitar meus tios e primos que moram no litoral do Rio de Janeiro. Vamos nessa?
– Sério? eu bem que gostaria, mas dependo da permissão de meus pais.
– Peça para eles, seria muito legal que fossemos os dois. Peça e me dê uma resposta!
– Não prometo nada, mas vou tentar!
Aquele convite veio a calhar. Papai me devia uma viagem desde que fiz aniversário e há muito eu nutria a enorme vontade de conhecer o litoral carioca. Eu que nunca saí de Minas, confesso que fiquei bastante excitado com essa possibilidade. Minha euforia aumentou ainda mais após ter obtido a permissão e o dinheiro necessário para a viagem. O tempo parecia não passar de tanto que ficamos ansiosos, eu e Fred.
Finalmente o grande dia chegou. Com mochilas nas costas e a mente cheia de recomendações ouvidas de nossos pais naquela manhã, partimos. Sentado naquela poltrona de ônibus, próximo à janela – Fred cedeu-me gentilmente a janela – eu imaginei as cenas que nos aguardavam naquelas férias como num filme. Como seriam os tios e primos de Fred? E a praia, teriam ondas que dessem para surfar? Com o celular na mão filmei ou fotografei qualquer paisagem que me pareceu atraente. E são muitas as belas paisagens na Rio-Minas.
Com o sol já se pondo, chegamos ao nosso destino, o fim de tarde proporciona ali uma bela visão amarelado-escuro na vegetação e nas encostas dos morros. O lugar é um pequeno povoado com poucas casas e possuindo vegetação típica do litoral, com a brisa intermitente levantando as folhas dos coqueirais.
A casa é grande e bonita, mesclada com madeira e alvenaria, tem uma pequea ponte de concreto na entrada para se evitar o terreno pantanoso, antes da porta principal. O primeiro cômodo é a sala, grande e confortável com poucos móveis. Logo ao entrar sente-se um frescor agradável, provocado pela sombra da vegetação próxima e a brisa, combinados com a madeira fresca. Mais à frente temos a cozinha, com uma grande mesa ao centro. Uma porta à frente conduz aos quartos do andar térreo. Uma escada à direita dá para os quartos do andar de cima e uma porta à esquerda liga esse cômodo à grande varanda, que circunda a lateral esquerda e a frente do imóvel. De dia, é o lugar preferido da casa, pois de lá observa-se o movimento das pessoas que se dirigem à práia, através de uma grande ponte. A práia e o mar distam da ponte cerca de cem metro depois de se caminhar suavemente por um caminho fino no terreno gramíneo onde nascem aqui e ali pequenas flores amarelas.
Logo fui apresentado aos tios de Fred, um casal muito distinto e educado; ele um homem baixo de cabelos loiros aparentando uns quarenta anos; ela, uma senhora morena de cabelos pretos e muito cheia de joias. E aos filhos do casal Gilda, Flávio e Tiana. Gilda é uma moça muito bonita de 15 anos, de cabelos encaracolados, nariz afilado com sorriso fácil, muito estudiosa com paixão desenfreada por cachorros, ela hoje possui cinco cães. Flávio tem 13 anos e me pareceu muito tímido e concentrado. Já Tiana é ainda uma criança de dez anos, muito conversadeira, sendo a alegria da casa.
– Rapazes, fiquem à vontade, escolham um quarto para ficar, tomem um banho refrescante e desçam para o jantar – disse com voz firme seu Júlio, o tio de Fred.
– Tá bom til, não se preocupe que já conheço o esquema – agradeceu Fred, demonstrando naturalidade.
Mais tarde, com a noite já bem escura e ouvindo o coaxar de muitos sapos de pântano, estávamos todos ao redor da mesa na varanda, jantando. Sentíamos o glamour do início de férias, quase sem acreditar que estávamos lá, longe da loucura da cidade.
Mais tarde, em nosso quarto Fred revelou-me uma surpresa. Na verdade não ficaríamos naquela casa. Nossa passagem por lá serviria apenas para não gerar preocupações junto aos pais dele. Fred contava com o jeito liberal de seus tios para realizar seu sonho de ter a própria casa de verão, coisa que empreendia já desde o ano passado. Ele construiu uma casa rústica na ilha de Curica, distante uma hora de barco do litoral. Na casa já havia inclusive um caseiro, trata-se de um velho amigo, o Evaldo, um rapaz de 25 anos de idade que vive de fazer e vender artesanato naquela região, gente muito boa e de inteira confiança. Contou ainda que os tios sabiam do empreendimento e que não tinham nenhuma intenção de aprofundarem-se em detalhes ou de barrarem as pretensões do sobrinho. Partiríamos rumo à Curica pela manhã.
No outro dia saímos bem cedo, por volta das sete, descemos do barco na principal práia de Curica. As oito estávamos acomodados já na pequena casa de Fred em plena práia, rodeada de coqueiros e vegetação litorânea. Como não havia o que descansar, tratamos de gastar nossas potenciais energias aproveitando todos os minutos do dia como se fossem os últimos. Dá gosto passar vários dias na práia, sentindo a brisa, o sol, o mar, o aroma bulcólico, paradisíaco. Depois do almoço resolvi caminhar sozinho pela práia. Antes, Fred e Evaldo dera-me as coordenadas dos lugares mais frequentados da ilha. Mas eu não quis ir a nenhum sozinho. Nos dias que se sucederam, tive a oportunidade de desfrutar de muito prazer nos locais onde frequentei com meus dois companheiros. Depois do jantar, eu costumava ficar deitado na areia, em frente à casa, olhando o lindo céu estrelado, até ter sono para dormir na cama. Foram assim, de muito descanso e tranquilidade as minhas primeiras férias no litoral carioca.
Autor: Violão, Literatura & cia
O susto
– “Torre do Galeão, bom dia, Asla 2535, destino Belém, solicito permissão para decolagem”
– “Bom dia Asla 2535, permissão concedia na pista 2”
Na cabine, lado esquerdo do Boeing 737-200 está o comandante Romeo, com sua larga experiência de dez mil horas de voo. Ao seu lado, o copiloto Dantas, que apesar de copiloto, já tem uma certa experiência com a aeronave, o que pode deixar os passageiros tranquilos para a viagem, no que depender da competência por parte dos pilotos. Para servi-los os passageiros contam com quatro comissários de bordo: Amália, Bira, na parte de trás da aeronave; Nena e Garcia no deck dianteiro, próximo à cabine.
Após o último Checklist os motores são acelerados, com as manetes empurradas para a posição fullpower. O Boeing corre pela pista e flutua na atmosfera carioca sendo almejado de leve pelos raios nascente do sol daquele belo amanhecer no Rio de Janeiro. Eram exatamente sete horas da manhã. Fevereiro se fora e a maioria dos passageiros está retornando de férias na cidade maravilhosa, após passarem deliciosos dias ensolarados e terem curtido o carnaval daquele ano. Pela fonia interna o comandante dirige-se aos passageiros.
– “Senhores passageiros, vos fala o comandante. Informo que nosso vôo sem escalas tem previsão de chegada em Belém por volta das dez da manhã. Voaremos numa velocidade cruzeiro de oitocentos kilômetros por hora, num altitude de nove mil metros, desejo a todos uma boa viagem”.
Enquanto ganha altitude com leve inclinação de curva à esquerda, num encontro com não espessas camadas atmosféricas de densidades diferentes, o avião costuma balançar, provocando algum desconforto, mesmo sem nuvens, causando medo aos passageiros de primeiras viagens e também naqueles como eu, para quem qualquer vôo parece sempre ser o primeiro. Estabilizado, o Boeing parece zombar da gravidade seguindo sua linda marcha retilínea após um leve e ligeiro balançar da extremidade da cauda, como um grande pássaro garboso a ostentar seu vôo.
O vôo com céu limpo a essa hora nos permite ver no solo alguma lâmpada de casa acesa. Possivelmente dorme ainda algum morador solitário o último sono, e, enquanto seu inconsciente ouve o ruído de nossos motores, seus sonhos contém senas inusitadas e quotidianas, e a mente retoca a produção de estranhas e mágicas substâncias essenciais ao corpo para a odisseia diurna. É hora de agradecer por tudo, pelo sol que nasce, levando os passarinhos que cantam saudando o novo dia.
Com o vôo estabilizado, é hora do café. A tripulação começa a servir aos passageiros um lanche simples, que não se compara em nada ao “padrão Panair”, disponibilizado nas décadas de 50 e 60, nos tempos áureos e glamourosos da aviação comercial. Atendimento vip só para alguns poucos, que podem pagar bem mais caro, em vôos onde há primeira classe.
Na cabine, são servidos a cada um dos pilotos um copo de suco de laranja. O comandante faz um pedido ao copiloto.
– Dantas, faça uma inspeção visual no motor direito. Por um momento senti alguma vibração nesse lado da asa!
O copiloto se estica um pouco e começa a inspeção, que dura cerca de trinta segundos.
– Tudo certo comandante, visualmente não percebo nada de anormal nesse motor.
– Obrigado, deve ter sido alguma turbulência nesse lado. Não percebo mais nada nesse momento.
Depois de meia hora.
– Comandante, preciso ir ao banheiro. – informa Dantas ao piloto, demonstrando certa urgência.
– Fique à vontade, Dantas, eu tenho o comando!
Dantas dirigiu-se à toalete traseira da aeronave e após ter urinado e sentindo-se aliviado, com o semblante melhor, inicia seu caminho de volta à cabine, podendo agora com mais tempo, poder cumprimentar com cordialidade seus colegas da parte traseira e dianteira do avião. Ao tentar abrir a porta da cabine, sente que a mesma está trancada, o que é normal: normalmente tranca-se a porta por medida de segurança, para impedir que passageiros mal intencionados entrem na cabine e consigam acessar os controles do avião. Dantas digita o código de segurança, mas não tem resultado, pois o comandante o desativou. Isso impede que qualquer membro a tripulação tenha acesso à cabine.
– Nena, entre em contacto com a cabine e peça para o Romeo abrir a porta, por favor!
– Romeo, aqui é a Nena, abra a porta que o Dantas está aqui fora e quer entrar.
Ninguém responde. E isso não é normal. Nena faz outros chamados mas o silêncio na cabine é total. Dantas pega o fone e faz também outros chamados mais nada de respostas. Ele resolve ir até a porta e começa a bater, mas o silêncio é persistente e preocupante. Garcia, o companheiro de Nena, a par da situação, vai a até o deck traseiro comunicar Amália e Bira sobre o que está acontecendo. Os dois, sem demonstrar qualque alarde, para não preocupar os passageiros, resolvem ir até o deck dianteiro.
Dantas começa a ficar preocupado. Ele bate muitas vezes na porta sem qualquer resposta, as batidas são cada vez mais violentas.
– Romeu, está me ouvindo? abra a porta, por favor! Eu preciso entrar! – suplica Dantas, sem obter resposta.
Nesse momento, Amália olha pela janela e percebe que o avião perde altitude.
– Estamos descendo! – mas eles sabem que isso não é para acontecer ainda. Estão com agora uma hora de vôo e a descida está prevista somente para daqui a mais quase duas horas de vôo. Os três homens e duas mulheres se entreolham com muita preocupação. Logo percebem que será necessário arrombar a porta, sob pena de morrerem todos.
Romeu ultimamente andava com problemas. O problema começou no coração.
Há cerca de um ano, conhecera uma jovem, durante uma folga. Estando ainda solteiro, com a idade de trinta e cinco anos, levava uma boa vida na cidade do Rio de Janeiro, lugar que escolheu para morar, onde se pode contar com uma vida boêmia e lindas praias. Lisa, é o nome da sua amada, com vinte anos de idade e uma beleza estonteante. Romeo, que antes residia em Aracaju, andava feliz da vida, ainda mais agora que havia encontrado aquela que pensava ser a sua alma gêmea. Ele já havia inclusive feito boa amizade com a família e com boa parte dos amigos de Lisa. De repente a coisa ficou muito forte. Romeu apaixonou-se perdidamente pela moça. Quando deu por sí estava mergulhado numa paixão avassaladora. Mas Lisa não sentiu a mesma coisa. O coração da jovem não se deixou penetrar pelo amor de Romeu. Lisa não era a sua Julieta. O apego sem disfarces do Piloto se fez notório para ela, que começou a afastar-se pouco a pouco. Primeiro disfarçadamente depois demonstrando desapego puro. Mas Romeu não perdeu as esperanças e fez de tudo para atrair o amor da menina, sem resultado. Por fim, Lisa, para afastar de vez as insistências de Romeu, o que acabou afinal dando certo, arranjou um namorado, e passou a andar com ele por todos os lugares, para a frustração total do ex amante.
Daí por diante a vida do piloto foi só sofrimento. Começou a ter depressão, chegando a consultar um psiquiatra. O médico concluiu que Romeu, além do problema amoroso, sofre também de síndrome psicótico depressiva com tendências suicidas. Precisou tomar remédios controlados que ao que parece não se mostraram eficazes para diminuir o sofrimento do paciente.
Ao acordar em casa, antes do vôo, Romeu decidiu por fim ao sofrimento – tiraria a própria vida – e para chegar ao seu intuito livrando-se daquele insuportável estado de penúria, tomou todos os requisitos necessários de forma fria e pormenorizada. Foi até a farmácia e comprou um frasco de hidroclorotiazida, remédio que estimula a liberação de líquido, provocando a urina mais que o normal. Pingou razoável quantidade da substância no copo de suco do copiloto no momento em que pediu para o colega inspecionar o motor direito. Na ausência de Dantas, que não suportou a vontade de urinar, trancou a porta e desligou o sistema de entrada por senha. Em seguida, desligou o piloto automático, desacelerou os motores e manobrou o avião para descer até que houvesse o choque e a explosão no solo.
Entre a tripulação o desespero é total. Dantas olha pela janela e conclui que eles têm apenas uns dez minutos para evitar o choque. Ele resolve usar o machado de emergência e passa a golpear a porta com todas as suas forças.
– Garcia, traga o tanque de oxigênio e vamos bater de forma alternada, rápido!
Os dois passam a golpear a porta alternadamente. A aflição aumenta na medida que o som das batidas é ouvido pelos passageiros, que também percebem a proximidade com o solo e passam a gerar um grande murmúrio ruidoso. Amália, Nena e Bira fazem um escudo humano para impedir a invasão do deck dianteiro por um grupo de passageiros alucinados que não se contentam com os pedidos de – Calma! – Calma! – Calma! – única palavra possível de ser dirigida pelos três tripulantes. No meio da multidão são ouvidos convulsivos gritos de:
– Estamos caindo!!!!!!!!!!!!!!
– Deus nos proteja!!!!!!!!!!!!!
– Vamos bater no chão!!!!!!!!!!!
– Vamos Mooooooooooooorrrrrrrrrrrrrrreeeeeeeeeeeeeeeerrrrrrrrrrrrrrrrrrr!!!!!!!!!!!!!!
Os golpes de machado desferidos por Dantas finalmente começam a abrir um buraco na porta.
– Estou conseguindo! Vou conseguir entrar!
Com a abertura do orifício, Dantas consegue passar primeiramente as pernas, depois, com dificuldade, o corpo, para dentro da cabine. A cabine está vazia. Pelas janelas dianteiras vê que o avião está a poucos metros de espatifar-se no chão. Ele rapidamente toma o comando; puxa cautelosamente o manche, ao mesmo tempo que leva as manetas de aceleração dos motores à frente. O Boeing começa lentamente a levantar o nariz e a distanciar-se do solo. Dantas não pode controlar a emoção e as lágrimas nos olhos.
– Garcia!!!! estamos salvos!!!!!
– AAAAhhhhhhhhhhhhh – grita Garcia de alegria. Com a porta já aberta, ele vai até seus companheiros e os abraça; a tripulação não pode controlar o choro. Amália e Bira passam a acalmar os passageiros, que, percebendo estar o avião retomando a altidude, estão mais tranquilos. Muitos agora esbravejam palavras de alívio e oram em agradecimento.
O Boeing alcança sua altitude e velocidade de cruzeiro. Após entrar em contato com a torre mais próxima e retomar o curso do vôo, Garcia chama Bira para ser seu copiloto. Os dois questionam o que teria sido feito do comandante Romeu. A resposta vem logo em seguida, quando Garcia encontra um pedaço de tecido da camisa do piloto encravada na fechadura da janela lateral. Rome tirou a própria vida, atirando-se pela janela em pleno vôo.
Antônio Mangas
Não deixe de fazer uma visita ao nosso canal do youtube, hein!!
A Caverna
– Pai, gostaria de ter sua permissão para fazer um passeio até Juliema. Eu, Marcelo e um amigo da faculdade estamos planejando explorar uma caverna lá. – Disse Pepe, um dos filhos de Seu Getúlio.
– Vocês podem ir filho, desde que tomem os devidos cuidados. Você sabe, explorar cavernas requer procedimentos de cautela e conhecimento de pessoa experiente.
– pode deixar pai, nós já providenciamos isso!
Seu Getúlio é um advogado de sucesso que consegui juntar uma pequena fortuna graças às grandes causas que venceu ao longo da carreira na área trabalhista. Ele vive em Constança com a esposa, a bonita D. Matilde, bem mais nova que o marido, e os quatro filhos Silvia, Renso, Pepe e Marcelo.
Pepe, com 19 anos é o filho mais velho e já cursa a faculdade de Direito. Marcelo, com 18 é o segundo e está terminando o ensino médio. Os dois rapazes receberam uma boa educação familiar e gozam de boa reputação na vizinhança e nas escolas onde estudaram. Seu Getúlio é muito orgulhoso deles e não viu problemas em liberá-los para o passeio. Os dois inclusive já frequentam alguns bailes da redondeza e nunca deram nenhum problema com bebidas ou brigas.
Na faculdade Pepe encontra seu amigo de turma Paulo para acertar detalhes da excursão.
– e aí meu caro Pepe! como vão as coisas, está firme a viagem?
– claro que sim, não vejo a hora de botarmos o pé na estrada!
– Pepe, você conhece o Jonas, aquele antigão da engenharia? Eu o convidei para ir connosco, achei que valeria a pena ter no grupo alguém mais experiente. Ele contou que já desbravou duas cavernas em Iriti. Vai ser uma boa tê-lo connosco.
– Por mim tudo bem, se você diz que o conhece!
– sim, conheço-o bem, você vai gostar dele.
– Sairemos no Sábado e voltaremos no domingo à tarde, então. partiremos lá de casa as sete da manhã. Combinado?
– Combinado! – respondeu Paulo. Os dois apertaram as mãos e foram assistir aula.
No sábado de manhã, pelas sete, já estavam Pepe, Marcelo, Paulo e Jonas na casa de Pepe, prontos para a viagem. Entraram no carro de Pepe e partiram rumo à Juliema, distante setenta e cinco quilômetros de Constança. Paulo apresentou Jonas aos dois irmãos e os quatro passaram toda a viagem conversando animadamente. Chegando na cidade, tomaram um ramal sem asfalto por onde percorreram cerca de meia hora até chegarem em local de onde seguiram à pé mata adentro por cerca de uma hora em caminho quase serrado e muita ladeira, até depararem-se com a entrada de uma grande caverna encravada na montanha.
Na escola onde estudam Silvia e Renso, é costume aos sábados haver programações desportivas das quais participam os dois filhos mais novos de seu Getúlio. Num momento de intervalo, eles sentam na lanchonete para um lanche.
– A essa hora os dois estão de boa na excursão! – comentou a irmã. Renso escutou e ficou pensativo.
– Não sei não! Porque eles não foram sozinhos? Não gostei muito daqueles dois.
– Puxa, mas você os viu por tão pouco tempo, não acho que se deve tirar conclusões pela aparência.
– Também acho, mas é que não sei se podemos confiar em todo mundo. Sabe como é?
– É mesmo, são tantos os cuidados que devemos tomar. Mas há de correr tudo bem!
– Assim espero! vamos embora!
– Ah! não! é tão cedo! Logo agora que eu vi um gatinho ali!
– Deixe de graça e vamos logo! – brigou com energia Renso, cheio de ciúmes e cuidados com a irmã.
Na caverna, os quatro já estavam bem adiantados caverna adentro e chegaram a um lugar largo e claro devido a uma abertura com entrada de luz, a uns vinte metros da entrada. Ali pararam por sugestão de Paulo. De repente, Jonas sacou de uma pistola e dirigiu-se para os dois irmãos.
– vocês dois, larguem as mochilas no chão e encostem na parede com as mãos para trás.
Paulo armou-se de uma faca, deixando claro que estava em conluio com Jonas.
– isso não é brincadeira que se faça, Paulo – gritou Pepe com a voz tremula, sem acreditar que era verdade.
– Brincadeira? fiquem quietinhos aí seus burguesinhos se não quiserem ter problemas – ameaçou Paulo seriamente.
– Paulo! – gritou Pepe desesperado – Como pode fazer uma coisa dessa com um colega de turma, seu desgraçado!
– Fica na tua, cala tua boca e me obedece – Retrucou Paulo puxando-o pelos cabelos. – Os dois irmão tiveram pés e mãos amarradas.
– O que vocês querem? – Perguntou Marcelo.
Paulo explicou tudo que havia premeditado com Jonas.
– Isso é um sequestro. Queremos grana. Não muito. O suficiente. O valor que seu pai pode pagar!
Depois disso, Paulo, que possuía o telefone da residência de Pepe, entregou-o a Jonas e o instruiu para que fosse até certo local que se sabia haver sinal de discagem para comunicar o rapto. Jonas saiu da caverna e ligou. Seu Getúlio atendeu. Jonas anunciou o rapto e o pedido, deixando muito bem claro que não queria a polícia no meio. Caso isso não fosse obedecido seus dois filho seriam mortos. Jonas acrescentou um detalhe que não fora combinado com Paulo.
Pela manhã, na casa de seu Getúlio, ficou encantado com a beleza da Dona Matilde. Durante a viagem a Matriarca não saiu de sua mente, por isso resolveu envolvê-la na trama.
– Detalhe, seu Getúlio. O dinheiro deve ser trazido por Dona Matilde!
– Pelo amor de Deus, eu lhe peço, não faça nada com meus filhos. Fique tranquilo que farei tudo como você pediu!
Como advogado, Seu Getúlio sabia que não podia brincar com a situação, temia que, pelo ímpeto, devido à forma violenta como lhe foram dirigidas as palavras o pior pudesse de fato acontecer. Chamou Dona Matilde e lhe pediu para levar o dinheiro e fazer tudo como havia exigido o sequestrador.
Jonas disse que ela deveria deixar o carro perto do de Pepe e seguir caminho pela trilha até encontrar-lo. Isso foi feiro.
Ao avistá-lo, Dona Matilde entregou a mala com o dinheiro. Mas Jonas não queria somente o valor. Com os olhos na bela mulher, começou a dirigir-lhe palavras: no início sérias, depois mais brandas e, finalmente, quase súplicas.
– Sabe dona, não me queira mal, eu gostei da senhora.
Dona Matilde é mesmo uma bela dama. Tem a experiência que adquirem as lindas mulheres casadas, para muitas vezes se livrarem de desejos masculinos. Mas não repeliu o facínora. Ao contrário, alimentou os desejos do rapaz, cedendo a um violento beijo tomado por ele num desejo suplicante de prazer. Ela consegui que ele, por um lapso de tempo, desse mais importância ao desejo, colocando em segundo plano a prontidão que deveria tomar alguém no ato de cometer um crime. A mulher teve o tempo de retirar o revolver do bolso da calça, botar a mão no gatilho e atirar na nuca do criminoso, matando-o instantaneamente.
Dona Matilde não acreditava no ato que fora forçada e tivera coragem de fazer. Seu corpo tremia de uma extremidade a outra. Mas pensou nos dois filhos e tomou forças para seguir o caminho e libertá-los. Escondeu a mala com o dinheiro entre as raízes de uma grande árvore; Seguiu pela trilha, determinada a resgatar seus filhos, até chegar finalmente próximo do cativeiros dos dois. Por sorte Paulo não estava tão perto dos meninos, então ela gritou:
– Não se mova ou eu atiro!
– Onde está Jonas? – perguntou Paulo, surpreso.
– Na trilha! Você me ouviu, fique onde está – Berrou percebendo que ele se levantava lentamente.
– A senhora não tem coragem de atirar! – O tiro em Jonas não fora ouvido dentro da caverna.
Dona Matilde estava com a adrenalina a toda e como Paulo não atendesse suas palavras e já estivesse perto, ela não hesitou em disparar em direção às pernas dele, que foi ao chão gritando de dor. A mãe então pode correr para os filhos abraçando-os e cobrindo-os de muitos beijos. Com os vilões fora de combate, mãe e filhos puderam chegar com facilidade até os dois carros, não sem antes resgatarem a mala com o dinheiro. Em pouco tempo houve a chegada de Seu Getúlio com a polícia.
Antônio Roberto Mangas
Lobo Amazônico
Colocando de lado as dificuldades, o povo do Norte do Brasil vive, sem saber, num paraíso verde inigualável no mundo, com uma floresta paradisíaca e um manancial aquífero com rios de todo os tamanhos, lugar de onde se pode extrair riquezas minerais, vegetais e animais, medicamentos naturais e alimentos para suprir todo o País e o até o planeta caso a extração desses recursos passasse a ser feita de forma racional, o que infelizmente não acontece por vários motivos. Até aqui fazendeiros, madeireiros, empresas mineradoras, grileiros e garimpeiros cobiçam e se utilizam das terras amazônicas como abutres que a disputam como um animal abatido.
Só vivendo aqui, perto desse mundo verde úmido é que se pode sentir toda sua infinita magia. Embora residindo na capital, tive na infância muito contacto com a floresta e dela trago comigo até hoje muito de seus prazeres enigmáticos. Como certa vez quando fui levado por meu pai com mais dois irmãos para uma colônia além no município do Acará. Aventura que passo a descrever nas linhas que se seguem.
– Acordem seus molengas, temos que estar bem cedo no cais do porto para pegar o barco! Gritou meu pai nos tirando da cama as cinco da manhã num belo dia de janeiro, mês em que o inverno já se estabeleceu, mas que ainda permite belas manhãs de sol e chuvas certas pela tarde. Dali há uma hora, caminhávamos sobre as estivas da orla do pequeno porto da estrada nova, pequeno porto onde ancoram as embarcações vindas de todos os longínquos interiores e pequenas cidades do Estado. Eles estão em quase toda a orla de Belém, na parte banhada pelo Rio Guamá na parte sudoeste, e pela Bahia de Guajará à oeste, separados aqui e ali por pequenas serrarias, olarias e empresas que se servem dos recursos dos rios.
Caminhando por entre as pequenas habitações de madeira sente-se odores variados: de comida, de frutas, mas o que impera são os odores de restos vindos principalmente ĺá de baixo, do solo pedregoso e cheio de peixes, troncos e lixo apodrecido, ocupando o espaço de areia e lama deixado pelo ciclo de marés.
Meu Deus, medito as vezes, tanto espaço, tanta terra, e esse povo comprimido em palafitas aqui na orla da cidade. Ao olhar de cima vemos que Belém é um espaço concretado no meio da grande floresta. Os bairros periféricos formam aglomerações de casas e ruas que surgiram da ocupação sem planos, pessoas deixadas à margem dos benefícios gerados pela renda da exploração extrativista da região, riquezas que só uma elite detém. As pessoas que aqui vivem em pequenos quadrados de tábua e cimento na capital nem desconfiam que têm o direito de viver em quase infinitos campos e florestas ricas em alimento e outras riquezas situadas logo ali a poucos quilômetros e em qualquer lugar desse imenso país continental.
Da orla, observo para os dois lados e avisto centenas de embarcações rudimentares de todos os tamanhos, construídas, em estilos simples, cada uma com seu nome em colorido, o teto revestido com isolante preto e bandeirinhas desbotados nos mastro. Os barcos transportam principalmente pessoas e alimentos, além de móveis e utensílios de toda espécie, mas sua marca registrada é o som do motor emitido pelo tubo de escapamento no alto da embarcação, o famoso “pô-pô-pô”, som que dá nome a eles em toda a região.
À direita, ao longo, avisto as torres brancas da Sé. À esquerda ao longo das águas de cor marron claro, a maresia reflete o sol em pequeninas ondas que brilham e na outra margem as matas verdes que margeiam o começo do rio guamá, nosso destino.
Agora a bordo de um barco, começamos nossa viagem fluvial, cortando as ondas do rio na diagonal, singrando as marolas desse imenso rio que mais parece uma grande avenida aquática. Próximo à margem oposta contemplamos as raízes de árvores que parecem infinitos e compridos dedos e pernas em busca de sustentação no solo barrento. Os caules cinzentos de todos os diâmetros, alguns com manchas brancas sustentam os galhos que balançam com gracejos suas folhas, entre as quais equilibram-se muitos pássaros nativos, aproveitando o sol e a fresca brisa matinal vinda do leste.
Há muitos açaizeiros com seus finos caules, alguns já com cachos maduros aguardando a colheita. Aqui e acolá aparecem, mais ao fundo, as casas, chalés de madeira, não raro com cobertura de palha, e suas pontes de tábuas à frente. Não raro, as águas na maré cheia cobrem até o assoalho. As pequenas pontes servem de condução da cozinha ao rio, com canoas, ou “montarias”, amarradas à sua volta. Elas quase afundam com o balaço das ondas geradas por nossa embarcação. É curioso ver crianças e adultos em pé, sobre as estivas, respondendo a nossos acenos de adeus. Lentamente atravessamos o rio Guamá e penetramos no furo que conduz até a localidade de Jacaréquara, lugar até então muito rústico, com casas distantes cerca de um quilômetro umas das outras. Dali caminhamos por cerca de quatro horas até chegarmos a uma casa de apoio, onde passaríamos a noite.
Na chegada avisto um cavalo branco amarrado numa árvore próximo a casa. Ele era dócil e não tinha o olho esquerdo. Fiquei por um instante a contemplá-lo, a pensar em que circunstância o animal havia perdido um dos seus órgãos mais preciosos. A imaginar se doía o local do olho. Quem poderia saber, se o animal não demonstra sentir nenhum incômodo. Mais tarde soubemos pelo dono que ele perdera um olho vítima da ponta de um chicote mal manuseado pelo filho do proprietário.
Passamos a noite naquela casa simples mas aconchegante, aos cuidados dos donos da propriedade, um casal de colonos muito cordiais e solícitos. Durante a noite e madrugada pude sentir o prazer de dormir sobre uma cama quentinha, despertando apenas uma ou duas vezes levemente, pelo canto de algum misterioso pássaro ou do grosso ronco da guariba no alto de uma árvore, sem prejuízo para o descanso do longo, reparador e prazeroso sono.
Pela manhã nos ocupamos desde bem cedo com os preparativos para o novo e derradeiro trecho da viagem, que dessa vez só poderia ser feito a pé. Pelas sete horas partimos acompanhados de um guia e três cavalos. Em poucos minutos estávamos imerso em uma mata fechada e escura onde pouco se podia avistar alem da picada aberta pelo caminho lamacento aqui e ali forrado com varas para aliviar os atoleiros.
Contemplando a imensidão onde minha visão podia penetrar da enigmática floresta, imagino hoje que, como a mata, todas as coisas do universo, inclusive nós seres que se intitulam proprietários da razão, temos nossa própria vocação. Diante disso é absurdo que grupos se dediquem a atacar a floresta para satisfazer seus fins econômicos. E pior, atacam as nações indígenas com a desculpa de que elas devem pouco a pouco tornarem-se como nós homens das cidades. E fazem isso com o intuito de se apropriarem das florestas que são o habitat natural dessas nações humanas. Agir assim é não aceitar a diversidade, é como negar a existências das espécies animais e vegetais,que compõem o espetáculo da vida terrena.
E seguimos nosso longo e lamaçento caminho em direção a um lugar nunca antes imaginado por qualquer de nós, nem mesmo por meu pai, acostumado com viagens pelo interior da Amazônia em busca de coletar insetos para estudos no Museu Emilio Goelde, juntamente com pesquisadores Americanos e Alemães. Esse era o trabalho de meu pai. Após muitos escorregões, com os cavalos banhados de suor, por causa do forte calor e umidade perto dos noventa por cento chegamos finalmente em nosso destino.
O lugar parecia uma grande aldeia com muitos troncos de árvores recém derrubadas ao centro. As casas, algumas ainda em construção, formavam um círculo enorme distantes uns cinquenta metros uma das outras. Na minha mente ainda em formação raciocinei se tratar de local de habitação recente, onde se percebia ainda o verde na vegetação ao chão e o barro úmido nas casas de taipa. Era forte o perfume de mata verde, terra virgem e água límpida no ar.
Dava gosto de ver o sorriso nos lábios de cada pessoa nativa. Nossa chegada soava como um presente: uma emoção rara para anfitriões e visitas. Maria, uma moça adolescente que trabalhou em nossa casa em Belém, era só alegria. nosso encontro foi saudoso e alegre, de uma emoção infantil com brilho nos olhos. É que na infância as condições para o sonho são mais propicias que na fase adulta. Eu lembro que em nossa estadia, em minhas andanças sorrateiras, com ouvidos ligados em conversas adultas, escutei meu pai dizer que estávamos quase ao sul do Estado do Pará. Na verdade não estávamos tanto: é que as dificuldades do caminho nos deram a impressão de percorrer muito mais. Na verdade estávamos ainda bem perto da linha do Equador.
Mas meu sonho de percorrer mundo falou mais alto. Na mente ainda verde e infantil, o grande passo para conhecer o vizinho estado do Goiás fora dado. Passei então a subir em árvores muito altas e olhar na direção sul, na esperança de enxergar algum vestígio do estado vizinho – o cerrado, alguma cidade ou monumento goiano. Tal ideia ressoou fortemente em meus pensamentos durante a viagem e por muito tempo em casa após nosso regresso.
Antônio Mangas