Luta inglória (soneto)

Lutam no Brasil a muito tempo
pobres e donos do lamaçeiro
Nunca se saceiam os segundos
Nunca comemoram os primeiros

Oh! Porque é a vida assim injusta?
Nesse lugar lugubre, essa disputa?
Fecha-se sempre a mão bruta
Abre-se em vão a mão que luta

Mesmo sem razão o rei resiste
Reluta sempre imóvel o mal ferrenho
Chora de pavor o filho triste

Nunca terá fim a luta inglória
Mesmo se clamando – Ó Deus, ouvir-nos!
Reina o mal e a paz ilusória.

Na Página do Crime

Violência 1

João de tal, mais conhecido como Joca bancário, 38 anos, residente na travessa do chaco s\n, saiu ontem pela manha de sua residência com destino ao centro comercial da cidade. Lá chegando, dirigiu-se à Agencia do Banco do Estado na Av. Presidente Vargas. Entrou naquela agência bancária e no caixa sacou a quantia de R$ 5.000,00 referente a uma economia de uns três anos que havia feito para pagar dívidas antigas. Meteu a grana no bolso e saiu assoviando “Detalhes” de Roberto Carlos pela avenida. Seu primeiro destino era o Bar do parque, onde pretendia tomar uma gelada daquelas da cor de canela de urubu.
Entretanto, após cruzar a travessa Osvaldo Cruz, e caminhar meio minuto pelo calçadão da praça da República, observou que dois elementos mau encarados lhe seguiam, com um dos dois aparentando portar arma de grosso calibre, pois se percebia alguma preponderância na parte frontal da cintura. De repente joca ouviu um dos dois elementos anunciar.
– para aí cara que é um assalto se não queres levar ums tecos.
Joca parou de imediato, as pernas num tremilique de vara verde. Pensou na situação, em toda a alegria cair por terra, tanta economia pra nada, quanta sede de orgia adiada. Porque não pegou um táxi? como pararia as contas atrasadas, o plano do bar do parque, tudo esvaíra-se num susto, por pura bobeira.
Passaram se alguns milésimos de segundos de agonia até que joca resolveu encarar a situação, afinal, era homem ou não? Resolveu virar para trás, na direção do dois indivíduos. Foi aí que um dos dois falou.
– E aiiiiiiiii Joca tás perdido por aqui cara! E Joca aliviado.
– És tu Ladislau, porra, me deste um susto do cassete, cara. Tratava-se de um velho amigo e vizinho de joca, um pedreiro de obras. O outro, um amigo de trabalho, os dois aproveitando uma folga do serviço. Ladislau foi logo convidando Joca para juntos tomarem uma cerveja, que, afinal, ninguém é de ferro.
– Eu estava a caminho do Bar do parque, com uma sede!
– Vamos fazer melhor, rachamos um táxi e tomamos umas geladas lá no Bar do Carvalho, na Vinte cinco. Propôs Ladislau. Nesse tempo o Carvalho abria o bar pela manhã.
– Só se for agora, concordou Joca todo contente. E foram, consumiram os três quase uma grade, varando pela noite, muita conversa atrasada, muita piada, e mais, coisas que quem bebe nem lembra no outro dia. Vez por outra Joca apalpava no bolso o maço de notas. Os da cerveja já separados. De lá foram cada um para suas casas chamando cachorro de cacho e urubu de meu louro.
Hoje de manhã, em casa, joca contou com a patroa o dinheiro. A menos, só o que foi com as cervejas.

Antônio Mangas

Nosso Tempo

Do tempo em que estamos vivendo pode-se conjecturar muita coisa, colocar adjetivos e reclamar horrores, mas um termo me parece mais adequado: confuso. As vezes me pergunto se não estou inquieto por causa da idade. Afinal todos concordamos que a juventude é mais propícia ao sonho do que a vida após os cinquenta. E não é difícil conceber que sonhar é melhor que levar a vida cheia de responsabilidades.

Mas porque afinal mesmo pessoas jovens concordam que na atualidade é mais difícil de se viver. Afinal, o progresso não gerou a felicidade que esperávamos? A resposta parece fácil se levarmos em conta que, com o passar dos anos a população cresceu em quantidades exponenciais e o emprego não acompanhou esse crescimento. E mais, o avanço tecnológico acabou gerando desemprego, na medida em que houve substituição da mão de obra humana pela tecnológica. Mas isso não é só.
Comparemos alguns aspecto do nosso cotidiano com os de quarenta anos atrás.
Hoje temos a informática com todas as suas possibilidades, redes sociais, vídeos do youtube, mais facilidades para divulgar ideias; antes, visitávamos mais nossos amigos, íamos mais ao cinema, íamos mais à biblioteca. hoje muito mais pessoas podem gravar em casa suas próprias músicas e isso possibilitou a divulgação de gostos musicais de toda espécie: o resultado foi massificação de gêneros e ideias fáceis, mmuita coisa com ausência de senso crítico, o que não se limitou à música; cada vez mais encontramos na net, pessoas divulgando o racismo, o ódio indiscriminado e teorias que carecem de comprovação.
Antes, os compositores assinavam contratos com as gravadoras, o que forçava à profissionalização dos músicos e o consequete primor nas composições. Ou seja, o conteúdo das músicas era mais selecionado.
As pesquisas bibliográficas levavam à conclusões mais consistentes, por isso não podemos abandonar as livrarias e a biblioteca. Isso quer dizer que o livro, mesmo que seja digital não perdeu seu espaço. Enfim, uma coisa é certa: no atual estágio sabemos que a net não pode substituir antigos hábitos como ir ao cinema, visita amigos e bibliotecas; estas continuam sendo atitudes mais sadias, pois possibilitam o corpo a corpo, que nos permite sentir o insubstituível calor humano.